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terça-feira, 2 de junho de 2009

Luar do Sertão - Jáder Rocha

Jáder avisa: "Tirei da varanda de casa"

-Quer ler os textos do Clube de Ideias de Penápolis? Clique aqui!

"Oh que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando, folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade, do luar lá do sertão!
Se a lua nasce por detras da verde mata
Mais parece um sol de prata, prateando a solidão
E a gente pega na viola e ponteia
E a canção e a lua cheia, a nascer no coração

Não há, ó gente, oh! Não, luar como esse do sertão

Quando vermelha no sertão desponta a lua
Dentro da alma flutua, tambem rubra nasce a dor
E a lua sobe e o sangue muda em claridade
E a nossa dor muda em saudade
Branca assim da mesma cor

Música de Catulo da Paixão Cearense / João Pernambuco"

Jáder Rocha é professor há milênios e não se conforma com os rumos que a educação tomou no Brasil. Fundou seu imaginário Clube de Ideias na pequena cidade de Penápolis, onde discutia política, filosofia e educação. Anda em falta com os textos, mas nos manda este retrato do luar do sertão.

=>Mande você também suas fotos e textos para clube.ideias@gmail.com

domingo, 17 de maio de 2009

Sem ideias: 21ª sessão do Clube de Ideias

Penápolis, 17 de maio de 2009.

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.


Sem “idéias”, os membros desse clube copiando Saramago, que lembrando de Cícero diz: “Até quando, ó Berlusconi, abusarás da nossa paciência?”

Por extensão afirmamos : Até quando, ó Congresso Nacional, Violência Urbana, etc, abusáras da nossa paciencia ?”

Os membros do clube resolveram contemplar e não falar .


Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

=>Nós queremos suas ideia, mané! Manda pra gente em clube.ideias@gmail.com

domingo, 3 de maio de 2009

Ética e Totalitarismo: 20ª sessão do Clube de Ideias

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.


Após um grande intervalo voltamos a nos encontrar, perturbados pelo encerramento do bimestre escolar.

O professor Veloso afirma que é uma inutilidade a aplicação de provas, exames, porque os resultados são desanimadores. Já o professor Figueiredo não vê outra forma de realmente constatar se o aluno domina conceitos, a língua e etc. Formas alternativas de avaliação são aplicadas, constata o professor Vladimir, porém o que se avalia é o domínio de outras competências e habilidades, que a tradicional prova não o faz. Ocorre que, a verdade, sobre se você domina ou não conceitos, linguagens elaboradas, se faz ali no preto no branco da prova, afirma Figueiredo

Todos os dias constatamos a formação de um estado eminentemente autoritário ou de uma sociedade autoritária, afirma Machado, mudando o rumo da conversa.

A sociedade clama por leis de Talião, por restrições a liberdade individual, como forma de solução para problemas do cotidiano. Isso ocorre no trânsito, em relação a fumar, as passagens dos congressistas. Mas estes mecanismos salvaguardam os interesses da população, interfere Vladimir.

Veja, diz Machado, as leis de trânsito devem existir é claro, mas o comportamento no trânsito não deve funcionar porque a lei quer, mas porque o cidadão é consciente, dessa forma ele não precisa de uma lei que determine que ele não deva dirigir porque bebeu, porque ele tem a consciência de que exageros com o álcool levam a acidentes no trânsito. Ou ainda, o congresso, o deputado por uma questão de ética não deveria fazer mal uso de certos mecanismos que facilitam a atividade parlamentar (passagens aéreas). Não seria necessário criar uma lei para isso. A ética definiria tal atitude.

Mas não vivemos num mundo ético, caro Machado, diz Figueiredo, daí a necessidade da lei, que e deve ser implacável, dura lex, sed lex.

Mas este é o ponto, diz Machado. Abrimos o campo para nos submetermos à lei, ao estado, e perdemos a autonomia. Logo as pessoas vão se dar conta que as leis não dão conta e que é preciso mais. O parlamento não da conta, precisamos mais. Do que precisamos? Do totalitarismo.



De fato o Vladimir tem razão, afirma o professor Teixeira. Os sintomas estão ai presentes, a ausência de memória, a ameaça de novos genocídios, a falta de autonomia dos educadores, a submissão a líderes políticos carismáticos, lideranças religiosas fundamentalistas, enfim é um quadro preocupante.
Preocupante, mas o nosso jardim epicurista resiste.

domingo, 12 de abril de 2009

"Viva Zapata", Elia Kazan: 19ª Sessão do Clube de Ideias

-Leia análise do filme "O Leopardo"

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

Viva Zapata!

Mais uma vez nos debruçamos sobre o México apreciando um belo charuto Montecristo. A revolução mexicana de 1910 foi objeto da nossa discussão, após assistirmos ao filme “Viva Zapata!” de Elia Kazan de 1952, com roteiro de John Steinbeck.



Marlon Brando transformado em mexicano é o protagonista. O filme conta também com a bela atuação de Anthony Quinn, como general e irmão de Zapata (Brando). O professor Teixeira lembra que o filme é quase didático na abordagem da Revolução mexicana, mas não deixa de ser a visão de “Holiude”.

O professor Machado lembra que Glauber Rocha escreveu em “O século do cinema” (pg. 50 51), que “Kazan,..., conseguiu transmitir, influenciado por Que Viva México, de Eisenstein, a paisagem mexicana com grande plasticidade. Mesmo negando o valor da revolução quando pretende provar que os chefes se corrompem quando atingem o poder, pôde, sob o ponto de vista cinematográfico, ser mais objetivo, mesmo intencional, mais vivo.”

O filme apresenta um ponto nebuloso sob o ponto de vista histórico quando Zapata aparece como dirigente político burocrata derrubando o general Huerta se transformando em presidente do México. Tal situação não aconteceu alerta o professor Figueiredo.

Fomos reconstituindo alguns episódios da história da Revolução mexicana admirando a bela fotografia do filme de Kazan.

Dessa forma, o processo revolucionário deve ser compreendido a partir da queda de Porfírio Díaz que ficou no poder durante um grande tempo (1877 a 1911), modernizando o país: avanços no campo da ciência, industrialização, livre comércio. Mas seu governo estava associado à Igreja Católica, aos grandes proprietários e especuladores. É a fase de grande concentração de terras, e a situação dos trabalhadores no campo é dramática. Ocorre também grande dependência do capital norte-americano.

Amplo descontentamento popular devido à corrupta classe dominante e seus associados no clero e governo provoca a eclosão de revoltas no campo e cidades (operários organizados em sindicatos anarquistas). É a Revolução de 1910, que contou com a participação ativa da mulher (a soldadera).

Elites políticas sob o comando de Francisco Madero (que não é tão débil como o filme procura demonstrar), tentam impedir o continuísmo político, através de um levante armado, que se transforma em revolta social, devido ao levante de camponeses liderados por Pancho Villa e Emiliano Zapata.

A figura de Zapata não é a de um simples índio analfabeto, que se transformou em liderança, como o filme acaba induzindo, mas era um homem politizado assessorado por anarquistas. No filme a figura de Fernando Aguirre (Joseph Wiseman) emissário de Madero, está mais para representante do comintern, que afirma que a máquina de escrever é a espada da mente e tece a seguinte consideração sobre os revolucionários zapatistas: isso tudo é muito desorganizado.

Em 1911 Madero vence eleições e vira presidente. Sob pressão de Zapata é elaborado o Plano Ayala onde é lançada à luta contra o governo de Madero e apresenta as reivindicações camponesas: reforma agrária no sul através de sistema coletivo de ocupação da terra com a participação do povo nas decisões (eleição de tribunais, etc.). Sob o lema “Terra e Liberdade” ocupa a Cidade do México por três vezes entre 1914 e 1915.

Em 1913 ocorre um golpe contra Madero, que foi fuzilado com o vice-presidente. Assume o general Huerta que ameaça os opositores.

Em 1914 encontro entre Zapata e Villa (no filme Allan Reed) em Xochimilco, levando a invasão da cidade do México. Em janeiro de 1915 a cidade do México é governada pelos representantes da Convenção, mas expulsos da cidade pelo general Obregón.

No estado de Morelos Zapata aplica a reforma agrária, redistribuindo as terras às aldeias indígenas e defende as fronteiras do estado até maio de 1916.

Os generais Victoriano Huerta e Venustiano Carranza, chegam ao poder e fracassaram na realização da reforma agrária.

No governo de Carranza é promulgada a nova constituição (1917), onde se estabelece a reforma agrária; protege os operários; garante o controle do Estado sobre o subsolo. Mas as reformas destroem o espírito revolucionário.

O filme omite a intervenção freqüente dos Estados Unidos no processo revolucionário, chegando a ocupar algumas regiões do México, como Vera Cruz para garantir seus interesses e deter o carro revolucionário.

Era preciso derrotar Zapata não só no campo militar, mas destruí-lo. Para isso entra em cena o Coronel Jesus Guajardo, enviado por Carranza, para eliminar Zapata através de um ardil fingindo estar passando para o lado de Zapata. O ardil leva a execução de Zapata em 1919.

Mas o espírito de luta prossegue, pois os camponeses no filme não acreditam na morte de Zapata, simbolizado pelo seu cavalo, livre que segue em direção às montanhas, embrião da resistência atual dos zapatistas do subcomandante Marcos.

Para encerrar ficamos contentes com a leitora da 16ª Sessão do Clube de Idéias, a Sra. Elisa Franca como mais uma entusiasta do tirar a roupa e descobrir o ócio.

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

=>Envie seus textos para clube.ideias@gmail.com

Assista ao trailer de "Viva Zapata"

domingo, 5 de abril de 2009

Imposto de renda - 18ª sessão do Clube de Idéias

Penápolis, 22 de março de 2009.

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.
“A sociedade é hoje o produto das ações dos indivíduos de ontem, assim o amanhã será espelho de nossas ações de hoje”.

Receita Federal uma história de cidadania

Mergulhamos na declaração do imposto de renda e não nos sentimos mais cidadãos, principalmente porque poucos dos associados irão restituir imposto. A nossa sina vai ser pagar, em suaves prestações (até oito) o imposto devido, apesar da nossa pequena renda.

O professor Figueiredo, que restitui imposto, concorda com o pensamento da Receita e vê como inevitável o seu pagamento, senão o país não funciona.

Você está parcialmente certo diz Vladimir, principalmente se os impostos fossem revertidos para ações sociais eficientes e não como cacife político para negociações entre o estado e a classe política. Sem contar que é obrigação constitucional do governo a prática da assistência social.

Neste aspecto veja a Suíça, diz o professor Machado. Se alguém é demitido recebe 80% do seu salário por 11 meses. Se não consegue arrumar emprego depois dos 11 meses, o estado garante o aluguel e paga o atendimento de saúde. E mais, ele passa a receber US$ 1 mil dólares por mês e uma bolsa para alimentação. Isso que é história de cidadania.

Atarantado com a declaração e com o valor que terá que pagar de imposto, por causa dos seus quatro empregos, o professor Veloso entra em transe passando a ter delírios glauberianos: Cortar cabeças num estado sem cabeças. Apontar fuzis. O prazer do poder, a solidão do poder. O Clamor do povo. Morte ao usurpador. Curar e depois morrer.

Enviamos as declarações de imposto e frustrados sentamos em silêncio. Abrimos uma garrafa de Serra Malte, acendemos um Jewels black gold e aguardamos o fim do dia.



Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

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domingo, 29 de março de 2009

17ª sessão do Clube de Ideias: Uma nova escola?

Penápolis, 15 de março de 2009.

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.


Novamente retomamos alguns aspectos da educação, pois afinal essa tem sido a realidade profissional de quase todos os associados deste clube.

O professor Vladimir afirma que as pessoas se iludem com a propaganda do governo sobre as grandes mudanças na educação ou ainda, acreditam que medidas de auto-ajuda vão resolver os problemas. Como dizia Marx tem que partir da realidade concreta, das condições materiais, para perceber o que esta acontecendo.

Na escola pública em que atuo, diz o professor Teixeira, posso enumerar dois casos concretos das dezenas que ocorrem todas as semanas. Fato concreto 1: aluno com passagem pela polícia, inclusive agressão contra um policial desacatou a todos na escola e ainda agrediu o diretor da escola com uma lata de lixo. Apesar de ser criminoso, a justiça determinou a sua matrícula no começo do ano. Agora o conselho de escola vai transferi-lo, porque a expulsão não pode ser aplicada. Fato concreto 2: aluno da mesma escola , com perturbação sexual , assedia alunas no recreio , na sala de aula , nos corredores , etc. Os pais são chamados , ignoram o problema , porque são causadores do problema : assediam sexualmente o filho.

Figueiredo afirma que intervenções de grupos, Ongs, em projetos educacionais, estão em sua imensa maioria desconectada da realidade escolar, principalmente aqueles grupos que acreditam em reformas através da boa vontade, da solidariedade, da participação efetiva da sociedade na solução dos problemas educacionais.

Veloso afirma que participar ajuda, corresponde as conquistas democráticas da sociedade, mas não resolve questões estruturais como salários, formação de professores, disciplina, trato de alunos deficientes, freqüência de marginais nas salas de aula.

Jung, em “O Desenvolvimento da Personalidade” supera o materialismo do século XIX para repensar a educação no início do século XX, afirma o professor Machado. Um aspecto importante para lembrar sobre o comportamento das crianças nas escolas é entender que os pais são quase sempre os responsáveis pelas neuroses das crianças ( pg. 75) . A criança que sofre de algum desvio comportamental na escola, pode ser encaminhada pela direção da escola para tratamento médico ou para o conselho tutelar, mas a fonte da perturbação não é tratada: os pais. Chega de louvar a “santa maternidade” que desprovida de responsabilidade gera “monstros humanos” (pg. 178), conclui Machado inspirado em Jung.


Mas Jung lembra também como deve proceder o educador, que deve ter clareza sobre os seus pontos de vista e sobre suas falhas . Ser exatamente o que você é, sem iludir a criança, o educando. Esse é um ponto importante esquecido pelos educadores. “O educador deve ter em mente que pouco adianta falar e dar ordens; o importante é o exemplo” (pg. 137). “Ninguém pode educar para a personalidade se não tiver personalidade” (pg. 177).

Machado lembra de outro aspecto importante levantado por Jung. As crianças inúmeras vezes não devem receber educação coletiva, igual, se apresentam alguma deficiência, ou resistência à educação coletiva. Devem ser criadas classes diferenciadas não para excluir, mas para atender melhor as crianças, desenvolver suas potencialidades. O que não significa que toda a criança tenha potencial para ser, ou vontade para ser, pesquisador, livre docente, bacharel, etc. Não queremos decoradores de matemática, ou de palavras, a escola precisa atender a todas as necessidades humanas desenvolvendo talentos em diferentes áreas.

Claro que não defendemos o fim da escola formal, acadêmica, mas existe a necessidade de se criar escolas novas para atender todas as necessidades. Essas reflexões não estão na pauta dos dirigentes políticos e educacionais, nem tampouco nas Ongs. O que eles querem é uma escola única. Todos seguindo a mesma cartilha, amontoados. Afinal os custos...

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

sábado, 21 de março de 2009

16ª sessão do Clube de Ideias: Ditabranda

Sábado é dia de Clube de Ideias:

Penápolis, 8 de março de 2009
Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.


A polêmica iniciada pelo Jornal Folha de S. Paulo sobre o regime militar no Brasil denominado de “ditabranda”, ganha novos contornos com o artigo do professor Marco Antonio Villa (Ditadura à brasileira - FSP 5/3/2009). Nada mais falso comparar o regime militar brasileiro com as ditaduras do cone sul , diz ele. Durante o regime militar houve tortura, perseguições, mas também houve avanços: novas universidades públicas, festival de música popular, etc. Villa acerta , diz o professor Machado, na sua abordagem histórica sobre aquilo que realmente aconteceu entre 1964 a 1985, sem perder a perspectiva do estado de exceção que se estabeleceu aqui depois do AI-5. É bom esse debate para acabar com a utilização política do período por aqueles que nada fizeram durante o regime militar e agora querem ser transformados em heróis apostando na ausência de memória histórica, afirma o professor Figueiredo.

O leitor da 12ª sessão , senhor Zebra , reafirma a importância do Fórum social mundial porque traz personagens para os debates ou palestras como David Harvey, o que justifica a existência desses eventos. Também apreciamos Harvey, principalmente o professor Vladimir que vibra quando Harvey diz: “Quando eu olho para a história, vejo que as cidades foram
regidas pelo capital, mais que pelas pessoas”. Outra questão levantada pelo leitor é a questão do bem e do mal. Não acreditamos em consciência do bem ou forças do mal. Já algum tempo (cerca de 40 anos) abandonamos a dicotomia judaico-cristã do bem e do mal.


Ariadne voltou a nos visitar para executar uma bela dança do ventre e reforçar a bandeira do nudismo como lazer. Não o lazer do consumo, dos finais de semana nos shoppings, ou o obrigatório das baladas, ou da embriagues do final de semana. Essas são construções do mundo capitalista, que combatemos a exemplo do combate que o marxista Harvey faz.


O ócio foi esquecido, exclama o professor Veloso. No passado era o caminho que nos levava a contemplação e na Idade Média a Igreja o transformou no caminho que nos leva a deus, afirma Machado. Ariadne nos revela que o ideal do lazer deve estar livre das obrigações. Não podemos ter lazer estabelecido pela sociedade de 48 horas semanais, diz ela. Essa é uma farsa. Daí a defesa do nudismo que ainda não foi completamente controlado pela sociedade de consumo e tem um significado simbólico porque você não ostenta as roupas, adereços do consumo e despreza também o culto do corpo academia, porque a praça do nudismo é de todos.


Outro aspecto é o desejo sexual, afirma o professor Veloso, uma presença constante para os nudistas, pois o movimento pretende trabalhar todos os aspectos da desrepressão.



Mas sob o ponto de vista epicurista, lembra o professor Teixeira o comportamento do nudista deve ser saber lidar como o próprio corpo para não se escravo dos desejos dos outros ou desejos criados. Dessa forma tiro a roupa, mas não sou não devo ser condicionada pelo desejo do outro, alerta Ariadne. Nesse campo se estabelece a ética nudista, completa Teixeira.


Nietzsche disse certa vez que a tragédia grega é a transformação apolínea de ritos dionisíacos o que nos leva a receber com alegria Ariadne e as ninfas para realizarmos o caminho contrário da tragédia.

sábado, 14 de março de 2009

Saudades de Paulo Francis: 15ª sessão do Clube de Idéias

Sábado é dia de Clube de Ideias

Penápolis, 1 de março de 2009

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

Relemos o livro “O afeto que se encerra” de Paulo Francis (edição da Civilização brasileira, 1980). Foi o saudosismo dos associados que levou a releitura e também para reverenciar um estilo jornalístico que se perdeu, apesar dos imitadores pós modernos.

O professor Machado diz que o livro não é uma autobiografia, mas um livro de memórias, como Francis afirma logo no início do livro, procurando definir inclusive o significado da escrita na pg. 14. Dai o ecletismo, a variedade dos assuntos por ele tratados, o que era uma marca também nos seus artigos que começava a falar do governo brasileiro, passava por Dostoievski e terminava em Manhattan.
Perfeita percepção, diz Vladimir, quando Francis define os métodos da SS e da Cheka soviética como fruto dos métodos da Cia. de Jesus (pg. 46).

São interessantes as críticas sobre a esquerda brasileira, comenta o professor Figueiredo, que meteu os pés pelas mãos quando nos anos 60 diluiu, com o apoio do populismo de Jango, a luta sindical, que não pode dessa forma reagir ao golpe de 64 (pg. 61). Feliz análise de Francis sobre a loucura da posse de Jango, o seu vacilo político e o reacionarismo da classe média que temia o discurso da esquerda de “virar a mesa”.

Teixeira, citando Francis diz, temiam “... perder tudo, de empregados tomarem as jóias da patroa, ou que o morro descesse , apavorados pela propaganda hábil que a direita fez da propaganda inábil da esquerda. Essa é a síntese sociológica do golpe de 1964.” (pg. 61.). Assim, nos tornamos uma ditadura, para regozijo da classe dominante e como sempre o “fator humano, é o supérfluo, o sacrificável” (pg. 69).

O professor Veloso considera Francis um bom jornalista, mas um romancista frustrado. Na verdade Francis se considerava comentarista. De qualquer forma, diz Veloso, Francis percebeu que no futuro (hoje) o caos se estabeleceria devido ao desgoverno e a concentração de renda afirmando: “Um dia as cidades cairão definitivamente e uma nova era de trevas se abaterá na cabeça de todos, menos dos responsáveis, que fugirão de Concorde a Paris ou Londres, baldeação da Suíça” (pg. 70).

É curioso ver a posição avessa ao nacionalismo e a defesa da fraternidade universal (pg. 71) por um homem que insistia nos seus artigos (como por exemplo, “41 anos de solidão”, Folha de S. Paulo, 9/7/1987), de estar só, de querer ficar só. “Preciso de uma certa solidão ocasional” (pg. 146) . “Me consideram um caso perdido, um pequeno burguês que tornou às origens, se acreditando o centro do mundo” (pg. 147) . “A vida não começa aos 40. Começa a terminar, se tivermos sorte de resistir tanto”(pg. 132) . Dá impressão de que Francis era um ermitão mal humorado, perfil que se completou com a sua participação na TV (jornal da Globo e Manhattan Connection na GNT). Mas Francis era amável e hospitaleiro.

O professor Machado avalia que ele transitava muito bem pela obra de Marx, desafiando os intelectuais e a academia. Essa sua habilidade na leitura começou cedo, aos 14 anos, lendo em média 6 horas por dia.

Dessa forma é acertada análise que ele faz na pg. 170 partindo de uma reflexão de Marx sobre o capitalismo que retrata a atual crise global: “Marx me parece ter previsto o fim do capitalismo. (...). O avanço tecnológico que abate custos e aumenta lucros levará à miséria a imensa maioria da humanidade. (...) O monstro do capitalismo, que se alimenta de sangue, morre de anemia, dos próprios excessos”.

Encerramos a sessão com Francis: “Só se desilude quem se iludiu” pg. 171.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Ariadne, a velha hippie - 14ª sessão do Clube de Ideias

Penápolis, 22 de fevereiro de 2009.

Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.



Quando iniciávamos mais uma reunião sob a fresca sombra da velha pitangueira eis que recebemos visita inesperada de Ariadne, a velha hippie.

Chegou citando Foucault: “A lua, cuja influência sobre a loucura foi admitida durante séculos, é o mais aquático dos astros. O parentesco da loucura com o sol e o fogo surgiu bem mais tarde.”. Continuou falando tresloucadamente citando também, Marcuse, Lacan.

Observa Machado que Ariadne deve ter chegado navegando numa verdadeira Stultifera Navis porque o seu discurso corresponde ao do navegante de águas transtornadas.

Insiste a ilustre e bela visitante em discutir o antagonismo Apolo Baco. Prega o culto a Baco e começa a arrancar a roupa, para o deleite destes não tão sóbrios professores.

O professor Veloso, decide acompanhar o gesto da velha hippie e também arranca a roupa iniciando com Ariadne uma dança que reproduz os gestos das festas dionisíacas.

Figueiredo observa um pouco mais afastado o ritual, considerando-o fora do contexto de nossas reuniões.

Ariadne prega que busquemos a nossa energia, a alegria, o corpo, ... a loucura.

Machado sendo complementado pelo professor Teixeira, contesta a “loucura” proposta por Ariadne, usando a mesma leitura dela: Foucault. “Mas se o saber é tão importante na loucura, não é que esta possa conter os segredos daquele; ela é, pelo contrário, o castigo de uma ciência desregrada e inútil.”

Cuidado companheiros! Diz Vladimir: estamos a um passo de reconhecer que aquilo que fazemos aqui não é válido, é falso, enfim de jardim epicurista, nos transformamos em jardim sofista. E mais, citando também Foucault, “Se a loucura é a verdade do conhecimento, é porque este é insignificante, e em lugar de dirigir-se ao grande livro da experiência, perde-se na poeira dos livros e nas discussões ociosas; a ciência acaba por desaguar na loucura pelo próprio excesso das falsas ciências.”

Não temos a pretensão de organizar um jardim acadêmico. Somos simples cidadãos que precisam desse refúgio para falar sobre as nossas visões e reflexões sem compromisso.

Ariadne, no esplendor da nudez, sem rubor, nos convida para um mergulho na piscina. Um batismo de voluptuosidade! Afirma ela. Veloso mergulha, todos mergulham inclusive o reticente Figueiredo.

Apolo descobre Baco e a Stultifera Navis traz belas velhas hippies para completar o ritual iniciado por Ariadne. Afrodite, Ártemis, Antonieta, Safo e Ceres, mergulham na piscina e juntos assistimos ao por do sol.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Trotes violentos e volta às aulas - 13ª sessão do Clube de Ideias

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

Começa o ano, começam as aulas e a conversa é sempre a mesma, afirma o professor Teixeira: trotes violentos, planejamentos mentirosos que não reconhecem a realidade, corporativismo que garante aulas para o professor nota zero. O caos.

Os trotes existem desde o século XIV como rito de iniciação à universidade, diz o professor Machado. Lembra ainda, que a universidade é um centro de pesquisa, de conhecimento, local de reflexão. Mas tem prevalecido à tradição em oposição às transformações, afirma o professor Figueiredo. Os alunos veteranos não mudam a sua atitude, submetem os calouros à humilhação, pouco contribuindo para a sua integração na universidade. A iniciação dos calouros se transforma em violência gratuita, o que não deveria ser atitude de quem vai atuar na sociedade como profissional especializado, pesquisador, etc. Fica a impressão de que estudar é a barbárie, a bebedeira etc.

O que fazer? Para que serve a educação?

Quem deve estudar? Escola para quem?


As indagações permanecem porque as respostas estão distantes, diz o professor Veloso. O governo propõe conteúdos, avaliações, estratégias, ignorando a realidade, sem preocupações reais e concretas com o individuo, o futuro cidadão, afirma Teixeira.

O importante é a farsa. O aluno matriculado, alimentado pela escola, participando de atividades que não melhoram seu desempenho intelectual. A escola recebe a todos, reproduzindo o senso comum, iludindo a criança, o jovem, os pais. Pois basta estar na escola para no prazo de cerca de treze anos estar sofrendo o trote nas melhores universidades do pais . Doce ilusão!

E os salários? Não devo reclamar porque sabia o seu valor quando escolhi a profissão, afirmam dirigentes, diretores e donos de escolas. Dessa forma a carreira de magistério está em extinção definitiva. Claro, existirão os “educadores” sem formação a serviço da ordem reproduzindo os comportamentos criados pelo sistema.

Quem atua como professor, afirma Vladimir, deve usar como estratégia a desobediência civil, priorizando as suas ações como agente transformador da realidade. Deve ter coragem suficiente para dizer não as propostas oficiais que limitam a formação dos indivíduos. Não para o trabalho extraordinário não remunerado. Não a burocracia. Não a aprovação automática. Aproveito também, diz Vladimir, para felicitar o leitor das nossas sessões e colaborador do Clube de Ideias, senhor Eleutherius, que escreveu: “Via democrática para uma verdadeira mudança social? Creio que não, como utilizar a mesma ferramenta que realiza a manutenção das engrenagens para destruí-la? Chave de boca não é marreta, chave de fenda não é foice ou martelo.” Isso Vladimir, interrompe Figueiredo, agora só falta você e o senhor Eleutherius , criarem O MR-2009 e tomarem o poder. Mas o que fazer com o poder? , indaga Veloso.


A Miséria da educação, esta como a miséria da filosofia, a exemplo de Feuerbach sobre o materialismo, diz Machado. Governos propõem, organizam a educação afirmando cumprir o seu papel constitucional de formadores de cidadãos, mas o fim é outro. É a defesa do status social, que continua oferecendo educação diferenciada: alguns devem aprender outros devem fingir que aprendem.
Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Epicuro & Fórum Social Mundial - 12ª sessão do Clube de Ideias


Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

Viva o Fórum Social! Exclama o professor Veloso.

Acredito que o Fórum está voltado para o próprio umbigo e esquece a dinâmica da sociedade, diz o professor Teixeira. Concordo, afirma Figueiredo, porque a ação deve realmente partir dos movimentos sociais e não do fórum, que se transforma muitas vezes em cenário para populistas como Hugo Chávez.

Discutimos um pouco de Epicuro para não perder a forma, lembrando uma máxima do seu pensamento: “podemos escapar a dor”.

Podemos entender essa máxima como podemos escapar ao sofrimento, que significa adversidade. Daí outra máxima de Epicuro: “desviar das fatalidades”, afirma Vladimir.

Ora, escapar das adversidades deve começar no bolso ou na mente? Força interior ou poder econômico? Poder econômico desprovido de consciência leva inexoravelmente a dominar o outro, lembra Figueiredo.

Dessa forma não existe libertação e nem superação do sofrimento ou fatalidades. Para acumular riqueza o caminho muitas vezes, ou quase sempre é árduo, podendo significar abrir mão da liberdade e perder bons momentos da vida, pois estaremos subordinados ao tempo ficcional do trabalho, diz o professor Vladimir.

Perdemos o controle do nosso tempo e nos sujeitamos a esperança de um tempo que não existirá, porque acabaremos morrendo de tanto trabalhar.

Assim terminamos essa sessão ouvindo as belas melodias de Charlie Parker ao sabor da Original.

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Governo Lula e a revolução armada: 11ª sessão do Clube de Idéias

Penápolis, 1 de fevereiro 2009

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo
e Veloso.


O senhor Eleutherius, leitor e colaborador do clube de idéias fez o seguinte comentário a respeito da 8ª sessão do clube de idéias: “Não há outra via de mudança social se não for com a revolução, digo mudança armada e do povo para o povo. Sim, todo grupo oprimido e revolucionário é um perigo a segurança nacional, e não pode perder esse caráter,pois sempre que a elite ouvir falar em revolução lembrará de sangue, de bens perdidos, de pólvora, de desapropriação e sem dúvida de guerra, de confronto e mortes...É o desespero de quem oprimiu ser oprimido. Não creio nas rosas, na ternura ao carregar uma arma. Dedo no gatilho, e pensamento frio, e a certeza de que nunca mais passará fome”

O professor Vladimir ficou empolgado com as observações, voltando a acreditar nas possíveis transformações radicais da sociedade. Já o professor Teixeira exclamou: pobres moços há se soubessem o que eu sei! O professor Figueiredo achou o comentário anacrônico e não acredita em mobilização armada da sociedade brasileira. Machado lembra que Luis Carlos Prestes, ícone da esquerda brasileira, era contrário a luta armada inclusive contra os militares após 1964. Qualquer transformação da sociedade brasileira só poderia acontecer através da democracia, pensava ele. Sua crença na luta armada terminou após a experiência negativa de 1935, quando o PCB com o apoio da URSS tentou destituir a ditadura de Vargas e implantar o regime comunista através das armas.
Essa discussão nos levou a refletir um pouco sobre o governo Lula e por sugestão do professor Machado resolvemos caracterizar o governo do PT através de provérbios.
Assim, sobre as ações econômicas do governo federal: “Dos males o menor”; “Pela casca se conhece o pau”; “Quem não trabuca não manduca”.
Sobre o meio ambiente: “De boas intenções o inferno está cheio”; “O sol nasce para todos”.
Forças Armadas: “Boi manso, aperreado, arremete.”; “Quem quer, vai; quem não quer, manda”
Educação: “Cada macaco no seu galho”
Alianças políticas: “As paredes tem ouvidos”; “Cada um puxa a brasa para a sua sardinha”; Dinheiro não tem cheiro”; “Há males que vem para bem”
Reeleição: “Grande gabador, pequeno fazedor”
Política externa: “Em boca fechada não entra mosca”; “Uns comem os figos, a outros arrebenta-lhes os beiços”
Congresso Nacional: “A melhor espiga é para o pior porco”; “A ocasião faz o ladrão”; “Quem quer os fins, quer os meios”
Justiça: “De pequenino se torce o pepino”; “Vozes de burro não chegam ao céu”
E finalmente sobre o presidente: “Macaco não enxerga o seu rabo, mas enxerga o da cutia”; “Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”.
Esse exercício político proverbial nos deu sede e sorvemos grandes quantidades de água mineral gasosa, para aplacar a indigestão do cenário político brasileiro.

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha



domingo, 1 de fevereiro de 2009

Apologia aos prazeres do fumo - 10ª sessão do Clube de Idéias

Penápolis, 25 de janeiro de 2009

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.


O assunto é fumaça: Cohiba Lancero, Trinidad, Angelina, Toscano, Double Corona, Dona Flor, Jewels,...

Os prazeres do fumo! As raízes americanas, indígenas, diz Veloso.

O professor Machado afirma que a nicotina melhora a memória e o aprendizado. A nicotina, presente nas folhas de fumo, aumenta a transmissão de impulsos nervosos no hipocampo, região do cérebro responsável pela memória e aprendizado. A nicotina reforça as conexões sinápticas no hipocampo. E também, intervém o professor Teixeira, é preciso lembrar que a nicotina está ligada à excitação (estado de alerta), à atenção e também ao processamento rápido de informação.

Apesar das nossas reuniões acontecerem sob a fumaça de deliciosos charutos é necessário lembrar, diz Vladimir, que o fumo provoca doenças e a morte. Seus efeitos intoxicantes ocorrem a médio e em longo prazo, de forma cumulativa, encurtando a vida dos fumantes. O cigarro provoca câncer no pulmão, na boca, na faringe, na laringe e na bexiga, enfisema, infarto, bronquite e derrame cerebral. Mas como dizia Hannah Arendt, uma grande fumante e filosofa, “recuso-me a viver para minha saúde!”

O fumo traz risco à saúde não resta dúvida, afirma Teixeira, mas o moralismo que existe por trás das campanhas contra o fumo, o comportamento dos indivíduos sob o efeito da propaganda (antes era para fumar, agora é para rejeitar o tabaco e os fumantes), nos leva a outros receios. Logo, além do fumante, outros alvos serão criados na cruzada moralista e fascista da sociedade da beleza e saúde total. Dos belos e ricos corpos malhados, plasticados, etc. O próximo poderá ser o obeso, o feio, o geneticamente errado. É preciso cuidado quando se cerceia a liberdade dos indivíduos.


Vladimir informa que em 2001 uma associação em defesa dos direitos dos tabagistas, a Libertas, publicou o decálogo de um bom fumante:

1- Fume, mas não muito

2- Desfrute do cigarro durante toda a vida

3- Não fume até o filtro

4- O cigarro é um símbolo de amizade e descontração

5- Do cigarro, não fume somente o tabaco

6- O prazer e a descontração também têm limites

7- Proibido fumar?

8- Fumar é coisa de homens e mulheres

9- Apague bem o seu cigarro

10-O cigarro ajuda a pensar



Cruzada social contra o fumo, não é novidade, diz Machado. A Igreja combateu o tabaco desde o seu aparecimento na Europa no século XVI, porque o associava ao prazer corporal e mundano e a dissolução moral dos costumes, pois afinal era um hábito dos nativos da América. Chegou a excomungar vários fumantes. Nos EUA os grupos conservadores empreenderam campanhas para erradicar o cigarro desde o início do século 20.

Freud, que segundo alguns fumava cerca de 20 charutos por dia, o que ajudou a desenvolver o câncer no maxilar, que o levaria a morte, entendia o tabaco como um instrumento que servia de apoio para atravessar a vida. Ele observou que “a vida, tal como nós a encontramos, é muito dura e disso decorrem descontentamentos e dores. Não passamos sem paliativos, substâncias intoxicantes que nos tornam insensíveis. Elas são imprescindíveis.” (“O mal-estar da Civilização”). Por isso que o número de fumantes aumenta quando há guerras, depressões, desemprego e instabilidade social. O cigarro ajuda a humanidade a enfrentar o medo, a angústia e a incerteza. Freud reconhece o caminho do vício e acabou se entregando por completo a ele visto que descobriu a essência humana e se decepcionou.

Existe um aspecto social que gostaria de lembrar, diz Vladimir, o fumo no Brasil historicamente sempre gerou renda para os pequenos proprietários. Resolveríamos o problema de produtividade das terras fruto da reforma agrária e tornaríamos os brasileiros mais ágeis no processo de pensamento com doses homeopáticas de nicotina. Falta aos brasileiros essa ligeireza do pensamento. Exportaríamos muito fumo, mais uma opção para os agronegócios.

Mais uma vez o Vladimir está delirando, diz Figueiredo. Deve ter tragado todos os Cohiba que ganhou dos seus companheiros cubanos.

Encerrando: Compay Segundo (grande músico cubano) fumava aos 94 anos três charutos por dia. Fernando Pessoa escreve em Tabacaria: “Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.”

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

domingo, 25 de janeiro de 2009

Shopping Center: 9ª sessão do Clube de Idéias

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

O professor Machado fala das suas observações sobre a Meca do consumo: Shopping Center. Consumir como razão de viver.



Isso me faz lembrar, J. G. Ballard, afirma o professor Teixeira. O homem loja, o homem automóvel, metamorfoses que o capitalismo criou.

As pessoas andam feitos zumbis pelas “ruas” dos Shoppings, hipnotizadas, atraídas pelas vitrines. Desfilam as roupas que compraram no dia anterior e a regra é nunca sair dos shoppings sem uma sacola de compras.

Veloso observa que se você entra numa loja é acompanhado pelo vendedor que não deixa você a vontade para escolher o seu bem de consumo e sempre existe o olhar atento e constrangedor dos seguranças.

Outro fenômeno do mundo shopping são os pais que levam os filhos para iniciá-los ao ritual das compras. Tiram fotos das lojas e dos filhos junto aos enfeites e objetos de consumo. Acaba havendo uma fusão da criança com a mercadoria, afirma Vladimir. Quando terminam as compras não se sabe ao certo quem é a mercadoria, quem é o indivíduo.

Renato Janine Ribeiro escreveu um artigo (10/2008), lembra Machado, falando sobre o modelo do “sempre mais”. Queremos consumir porque os objetos ficam obsoletos ou porque não tem mais conserto, ou para satisfazer algo mais. A sede pelo consumo é insaciável, porque nos faz esquecer o dia a dia, nos torna potentes numa sociedade que frustra os indivíduos, ou não oferece outra forma de vida. Angustiados com o trabalho, com a família, sem saber o que fazer com ócio, passamos o tempo consumindo.

Veloso lembra que o consumo é também sublimação sexual, porque satisfazemos a libido sem qualquer risco de relacionamento, pois afinal fazemos parte de uma sociedade cada vez mais individualizada.

Como o templo shopping vai funcionar frente à crise econômica? A princípio os seguidores da seita consumo vão se endividar com os cartões até o esgotamento do crédito. Quem não tem crédito saqueia as lojas, satisfazendo a fé louca do consumo.

O próximo passo se a crise se agravar, conclui o professor Figueiredo, é o estabelecimento de um modelo político econômico cada vez mais excludente e autoritário que garanta renda suficiente a uma parcela de eleitos que entrarão no reino do consumo conquistando a sua salvação eterna. Aqueles que não conseguem consumir serão condenados ao inferno da exclusão total e eterna.

Jáder Marcos P. C. da Rocha é professor de história, epicurista e fundador do Clube de Idéias. Idéia inspirada no Clube da Luta de Chuck Palahniuk. Fugiu de São Paulo para Penápolis e não pretende mais voltar


=>Envie suas idéias para clube.ideias@gmail.com

domingo, 18 de janeiro de 2009

EZLN e Zapatismo: 8ª sessão do Clube de Ideias


O professor Teixeira assistiu ao filme “O Violino” de Francisco Vargas, fazendo grandes elogios para a fotografia, enredo e principalmente por retomar o tema da luta campesina no México.

Machado lembrou que em 1º de janeiro de 1994 levantava-se em Chiapas (México) a população camponesa indígena contra o Estado mexicano. Era o EZLN (Exército zapatista de libertação Nacional). Suas reivindicações: trabalho, terra, moradia, comida, saúde, educação, autonomia, liberdade, democracia, justiça e paz.

No mesmo ano começava a funcionar o NAFTA, afirma Vladimir. Foi a resposta do povo mexicano ao neoliberalismo que desmantela as redes de proteção social. Em Chiapas os camponeses viviam um estado de servidão permanente, reagindo às propostas de modernização que não levam em conta o homem. Era a vontade do sistema financeiro que globalizava a sua ação, devorando as economias periféricas.

O Subcomandante Marcos, líder zapatista, fala em 1998 num manifesto, sobre o final da guerra fria, por ele chamada de terceira guerra, diz o professor Teixeira. E do surgimento da 4ª guerra mundial, que utiliza uma nova arma: a bomba financeira, que destrói a polis e inflige à morte, o terror e a miséria aqueles que nela habitam. As hiperbombas financeiras servem para atacar os territórios (estados nações)

O Subcomandante Marcos usou o velho discurso revolucionário (“Porque combatemos”) para criar a sua estrutura de resistência ao abandono social do povo camponês, sem ser camponês, afirma Figueiredo.

Mas deu voz para os miseráveis que reagiam através da velha violência delinqüente. Aí a coisa começa a preocupar, porque não é o marginal que se rebela cometendo delitos comuns devido a sua condição social. Mas é o grupo social oprimido amparado por uma causa, uma ideologia. Mesmo originária do velho discurso esquerdista, consegue aglutinar as massas.

Veloso recorda que em 1998, o movimento que já tinha grande repercussão internacional, inclusive porque usava a internet, obteve o apoio de José Saramago que escreveu um artigo afirmando: “quando, há seis anos, as alterações introduzidas na Constituição mexicana, em obediência à ‘revolução econômica’ neoliberal, orientada do exterior e impiedosamente aplicada pelo governo, vieram por termo à distribuição agrária e reduzir a nada a possibilidade de os camponeses sem terra disporem de uma parcela de terreno para cultivar, os indígenas acreditaram que poderiam defender os seus direitos históricos, organizando-se em sociedades civis (...) foram sucessivamente metidos na cadeia (...). Levantaram-se com algumas armas, mas levantaram-se sobretudo com força moral”

O governo mexicano reage desde o início tratando o movimento popular como uma ameaça a segurança nacional, desta forma milhares de indígenas foram expulsos de suas casas e das suas terras por serem simpatizantes ou não da EZLN.

Por onde anda o Subcomandante Marcos? Pergunta Figueiredo.

No ano passado informa Vladimir, ele esteve presente em um encontro em San Cristóbal de Las Casas, no estado de Chiapas, Sul do México, que reuniu 3.000 simpatizantes. A reunião, denominada I Festival Mundial da “Raiva Digna”, coincide com o 15.º aniversário do levantamento do EZLN. O encontro estabeleceu uma nova estratégia: é a “guerra contra o esquecimento”. Nesses últimos anos os zapatistas tem lutado para mudar o sistema político mexicano, tendo por objetivo revolucionário a criação de um novo país, o que não implica na utilização da luta armada necessariamente.

Trata-se de um belo sonho, diz Figueiredo, mas pouco pragmático, visto que o México é um país tão complexo como o Brasil. Na Revolução de 1910(México) os operários não estavam muito dispostos a dar apoio a luta campesina de Emiliano Zapata. A classe média mexicana tem outros planos e a elite é claro não partilha desse sonho. Existe também o crescimento dos narcotraficantes com gangues extremamente violentas, enfim a luta zapatista pode se esvaziar.

Por isso que foi criada a “guerra contra o esquecimento”, afirma Vladimir. Terra é sinônimo de poder, por isso a luta do EZLN é significativa por chamar a atenção para as questões políticas do México.

O prof. Figueiredo diz que o minifúndio resolveria a questão da luta pela terra, mas sobre o ponto de vista dos agronegócios o minifúndio seria eficiente para alimentar o mundo?

Veloso chama atenção para a vida, os costumes dos povos Chiapas que vivem realmente da terra, comem e só. Nós queremos consumir, modernizar, tornar mais produtivo, assim às vezes passamos com os tanques sobre aqueles que destroem nossa crença no progresso definitivo.

Teixeira retoma as observações sobre o filme de Vargas e conclui que lutar pela terra é muito mais que ser proprietário. Porque terra significa lar: língua, sons, ancestrais, a razão para existir. A terra é o morro, favela, o campo, a minha casa, o meu espaço, a minha liberdade.



Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

domingo, 11 de janeiro de 2009

"O Leopardo" de Luchino Visconti: 7ª sessão do Clube de Idéias


Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

Embriagados com o novo ano assistimos “O Leopardo” de Visconti, fumando “Dona Flor”, para fortalecer a nossa crença que as mudanças tardam, mas chegam. Carregando espectros , lembra Figueiredo, espectros que são o fardo histórico que acompanha os homens.

No filme é possível observar a decadência da nobreza italiana frente ao processo de modernização burguesa. A cena em que aparece a família de Don Fabrizio chegando a uma localidade do interior, cobertos de poeira quando assistiam a uma missa, parecem fantasmas da nobreza que não percebe que já morreu que é o seu fim.

O professor Veloso lembra à adesão ao movimento de unificação, de Tancredi, sobrinho do príncipe Fabrizio, rompendo com a tradição da nobreza, dos reinos e principados fragmentados, chegando a casar com uma burguesa. Mas a adesão de Tancredi não se explica só por isso, afirma Vladimir.

Tancredi não vê saída para a nobreza. É preciso participar da luta pela unificação para continuar controlando as massas. A nobreza deve mudar, para continuar existir, dividindo seu poder com a burguesia.

O padre conselheiro de Don Fabrizio é contra a unificação. É claro. Alerta sobre ambição do povo que pode tomar as terras da nobreza e as do Vaticano.

O professor Machado observa que Don Fabrizio olha para os acontecimentos como fatalidade histórica e ironiza a modernização: “será que as estradas vão melhorar com a nova ordem política”. Como grande parte da nobreza siciliana, Don Fabrizio vive de acordo com a rigorosa moral católica, mas cede aos desejos, afinal diz ele, “sou um homem vigoroso”, como não ceder à carne (aventuras extraconjugais), quando teve sete filhos sem nunca ter visto nem o umbigo da nobre e cristã esposa.

Assim, iniciamos o ano sem nenhuma empolgação, expectativas, apreciando o nosso estado de espectadores da realidade, porque com a exceção de Vladimir, cansamos da práxis.

Trailer de "O Leopardo", de Luchino Visconti


Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

domingo, 4 de janeiro de 2009

Davi vs Golias: 6ª sessão do Clube de Idéias

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

Assistimos a luta entre Holyfield e Valuev e o professor Figueiredo logo nos fez lembrar sobre o próximo ano: o conflito entre David e Golias. Sim, teremos que ser heróis como David para enfrentar o gigantesco desemprego, a inflação, o conservadorismo, o autoritarismo, etc.

Davi e Golias na representação de Caravaggio

Torcemos por Holyfield. Menos o prof. Vladimir, por achar que o boxeador norte-americano, apesar do seu tamanho em relação ao russo é um ícone do capitalismo. Gasta muito dinheiro, mora numa mansão em Atlanta com 17 banheiros, com a maior piscina privada dos Estados Unidos e fugiu do adversário.

Independente disso torcemos para Holyfield porque a luta nos deu a sensação do conflito dos fracos contra os opressores . A possibilidade de reagir às dificuldades, aos obstáculos, o sonho do herói.

Os heróis existem ou podem existir, diz Veloso. São necessários para nos dar esperança, ou servir de exemplo para as lutas sociais.

O professor Machado lembra o mito religioso, quando Davi vence em combate Golias na luta contra os filisteus. Golias desafiou os soldados do exército de Israel para um combate individual, que ninguém aceitou, exceto o jovem David, que armado de uma funda matou o gigante com uma pedrada na testa e levou a cabeça de Golias para o rei Saul. Depois disso, a sua ascensão e popularidade foram inevitáveis. Tornou-se chefe do exército de Israel e favorito do rei (até tornou-se seu genro). Mas isso não agrada o rei, que passa a persegui-lo, obrigando Davi a fugir. Só após a morte do rei e de seu filho, David consegue tornar-se rei.

Davi X Golias, está presente em vários contextos sociais, onde nem sempre Davi leva a melhor.

Por outro lado, lutas populares podem ser vitoriosas quando existe determinação, ou quando a opressão chega ao limite. Teixeira lembra a luta dos negros na África do Sul nos anos 70 contra o desenvolvimento em separado (apartheid). Os estudantes se levantando contra a educação banto, que os instruía a falar afrikaner para obedecer a seus patrões brancos, e ainda limitava a sua formação . Para que aprender matemática se vai atuar como empregado dos brancos? De repente muitos David se rebelam. Não querem aprender afrikaner e começam os protestos. Golias age e mata vários estudantes. Parecia que o desfecho seria como a luta de Holyfield e David seria derrotado. Mas ocorreu a partir daí um crescimento das manifestações, o mundo se sensibilizou e a África do Sul sofre boicotes econômicos. Os brancos tiveram que ceder.

E a inversão ou ironia histórica da luta entre palestinos e judeus? Indaga o professor Vladimir. Os judeus representados por David no passado, que lutaram contra Golias, isto é contra os filisteus, era um povo que buscava a sua unidade política e estava em expansão procurando dominar a palestina ou a terra prometida, sob a perspectiva da justificativa religiosa. E a mesma religião criou o mito de David para justificar a luta do povo eleito, justo, etc. Na verdade os hebreus como qualquer povo da antiguidade entra em choque com outros povos em busca de pastagens, fontes de água (Rio Jordão), etc.

Hoje a luta simbólica de David, é a luta palestina, que enfrenta o moderno exército de Golias (Israel) com as velhas fundas ou mais sofisticadamente com os mísseis katyuschas. Até agora Golias tem levado a melhor, como na maioria das lutas sociais e populares que sonham com surgimento de um herói.

Com exceção do professor Veloso e do Teixeira, não acreditamos em heróis nem em messias, resolvemos seguir uma máxima epicurista para o final do ano: “desviar das fatalidades”

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

sábado, 27 de dezembro de 2008

Crise Econômica - 5ª sessão do Clube de Idéias

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

As incertezas econômicas levam a especulações para o próximo ano e desta forma o professor Teixeira inicia a nossa discussão natalina afirmando que mesmo a volatilidade da taxa de câmbio, ainda elevada, reflete em parte a incerteza global, de modo que não deve se perpetuar como justificativa para uma taxa de juros que não é capaz de atrair capitais gera custo fiscal desnecessário e punição da atividade.

Veloso acrescenta afirmando que além de não estar havendo fuga dos investidores individuais do mercado acionário, o crescimento registrado neste ano é bastante significativo. Em dezembro de 2007, havia 456,5 mil investidores individuais cadastrados na Bolsa. Ou seja, mesmo neste ano, marcado por uma forte crise, houve um aumento de 20% no número de participantes do mercado acionário doméstico.


O professor Figueiredo cita alguns indicadores: O índice de preços no atacado disponibilidade interna (IPA-DI) saltou 6,99% em fevereiro de 1999. Em novembro deste ano, apurou deflação de 0,17%. Há sinais de que o repasse da alta do dólar para a inflação, desta vez, inexiste. Ou seja, a inflação está sob o controle até agora.

Vladimir lembra que um fato fundamental é o de que os enormes pacotes de ajuda aos bancos não serviram muito à economia. As instituições de empréstimos que receberam fundos públicos devem usar esses fundos para emprestar. Os bancos estão armazenando capital e comprando outros bancos, em vez de emprestar a quem precisa de crédito. Logo não se resolve o problema. Os bancos por sua vez alegam que tem interesse em reduzir os spreads e manter a expansão do crédito. O problema é como viabilizar essa redução das margens em meio ao aumento dos custos de captação de recursos e à redução na demanda por crédito.

Machado intervém dizendo que o impacto da crise, que começou na esfera do crédito, é visível nos pátios lotados das montadoras, nos armazéns das indústrias de aço, papel e celulose, produtos químicos e até nos depósitos das fabricantes de máquinas. Em apenas um mês, de outubro para novembro, dobrou o número de indústrias que carregam estoques excessivos, revela pesquisa da Fundação Getulio Vargas.

Nos Estados Unidos, onde a crise subprime dava sinais já em 2007, levantamento divulgado na semana passada revelou desaceleração nos contracheques. A remuneração do alto escalão subiu em media só 7,5% em 2007, menor taxa dos últimos seis anos. Logo, aqueles que ainda tiverem empregos terão redução de salários.

Fato relevante lembrou Veloso, foi a reflexão feita por analistas sobre se a crise internacional não derrubará a renda da população e acabará diminuindo o consumo de papeis sanitários no país , visto que o Brasil é o 2º pais do mundo em crescimento de consumo de papel higiênico. Esse desempenho pode ser atribuído à redução do imposto inflacionário, á elevação do salário mínimo e a mudanças no perfil da política sanitária.

Utilizamos a linguagem econômica publicada pelos periódicos ao longo dessa semana, para ver se através das palavras, da sua arqueologia, seria possível vislumbrar alguma saída. Então mergulhamos nossas frustrações em copos de Black Label, sempre com a moderação típica dos epicuristas.

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

domingo, 21 de dezembro de 2008

Miscigenação: 4ª sessão do Clube de Idéias

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo
e Veloso.


Somos um país multirracial? Indaga Figueiredo. Existe sincretismo étnico? Quem ganha com o discurso das diferenças étnicas? Novas indagações dos velhos associados.
Machado intervém, confirmando a miscigenação e o multiculturalismo do povo brasileiro, lembrando o nascimento e transformação de Macunaíma de Mário de Andrade: “... nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo e da noite (...). O herói depois de muitos gritos... entrou na cova e se lavou inteirinho. (...) Quando o herói saiu do banho estava branco... (...) E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo... dos Tapanhumas.”

Mário foi genial, porque não estava preso a preconceitos e identificou o processo de miscigenação do povo brasileiro, dando prosseguimento à reflexão modernista de quem é o povo brasileiro.
O velho brasileiro é fruto de miscigenações, de povos que por sua vez quando chegaram por aqui (europeus, africanos, asiáticos) também eram filhos de outras misturas étnicas.

"Mestiço" de Cândido Portinari

Logo, políticas de cotas não têm razão de ser ou de existir, afirma Vladimir. Tentamos reduzir as diferenças socioeconômicas, corrigir erros do passado (a escravidão) de forma equivocada e populista, continua Vladimir, dessa forma são criados guetos étnicos, reforçando a diferença étnica ou racial. Esse era o discurso da classe dominante branca no passado com uma conotação racista.

Veloso lembrando Oswald de Andrade: “..., nós brasileiros, campeões da miscigenação tanto da raça como da cultura, somos a Contra-Reforma, mesmo sem Deus ou culto. (...). O que precisamos é nos identificar e consolidar nossos contornos psíquicos, morais e históricos”.
Culturas contra culturas, etnias contra etnias, são mais ameaçadoras do que uma agressão estrangeira, uma invasão. Uma guerra contra um inimigo interno é a implosão de um povo.

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha

domingo, 14 de dezembro de 2008

Poesia Erótica e Massificação: 3ª sessão do Clube de Idéias

Professores associados: Jáder, Machado, Vladimir, Teixeira, Figueiredo e Veloso.

Um leitor anônimo das sessões do Clube de Idéias teceu o seguinte comentário sobre fala do professor Figueiredo (sessão de Abertura):

“massificação
s. f. 1. Ato ou efeito de massificar. 2. Característica das sociedades desenvolvidas, para as quais o nível de vida tende a assumir valores padronizados
Então seria impossível declarar, assim como Alberto Caeiro busca negar a subjetividade das coisas,que logo a massificação intelectual é a negação da própria massificação...um pensamento em comum nos une...logo nos massificamos.”

Para Figueiredo o comentário é falacioso. Massificação (v.t.d.) é o conceito que serviu para ele, expressar a sua descrença em levar as discussões para a sociedade, porque o povo massificado perdeu sua habilidade de pensar, de ser crítico. Para assegurar a nossa independência e a nossa sanidade, nos refugiamos no Clube, vacinados da massificação.

A arte existe porque a vida não basta dessa forma enveredamos para o mundo da arte erótica, afinal para nós sexo não é secretum nem pudendum. Foi o pharmakon que encontramos para tornar a semana mais suportável: meditar sobre literatura erótica.

O professor Veloso leu poema de Dioscórides:

“Estendida sobre o leito, Dóris, a de róseas nádegas,
me fez imortal na sua carne em flor.
Tendo-me preso entre as pernas magníficas, completou
com firmeza o longo percurso de Chipre,
a olhar-me com olhos langorosos:eles tremiam
e cintilavam como folhas ao vento,
até que , vertida a branca seiva de nós dois, os membros
de Dóris por sua vez enlanguesceram.”

Eu me lembrei de uma advinha medieval francesa que diz:

“P. Vamos dormir que já é hora,
fazer o que ninguém ignora:
pôr peludo contra veludo,
marmota bem dentro da grota.
R. São as pálpebras que se fecham quando se vai dormir.”

Machado recita Aretino:

“Hortênsia quis dar gosto ao seu amante
e o lugar mais mimoso do seu corpo
franqueou-lhe, mas o fez prometer antes
que do seu grande rabo só um pouco
ali poria. E eis que ele, não obstante
a promessa, no furor do gozo,
põe-lhe tudo no rabo. Ultrum Hortência
poderá acusá-lo de violência?”


Chegou a vez de Teixeira recitar evocando Jean de La Fontaine:

“Amar, foder: uma união
de prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
o que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
juntam-se em doces efusões
que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
amar sem foder é bem pouco,
foder sem amar não é nada.”

Figueiredo foi buscar inspiração na Alemanha do século XVIII, recitando Wieland:

“O jardinzinho bem fechado
todo mês de rosas ornado
onde o jardineiro se enfia
e cuida e rega noite e dia,
louvado seja !
O bom mineiro tão robusto
que em negro buraco, sem susto,
penetra e fura sem cansaço,
até acabar-se, ficar lasso,
louvado seja !

Encerrando a nossa sessão semanal, o professor Figueiredo recitou Régnier:

“A língua ontem me atraiçoou.
Conversando com Antonieta,
disse eu ‘Que foda!’ e ela, faceta,
fez cara de quem não gostou.
Muito embora comprometido,
Vi, pelo rubor do seu rosto,
que o que eu disse dava-lhe gosto,
mas noutro lugar, não no ouvido.”

Jáder Marcos Paes Correto da Rocha