domingo, 6 de janeiro de 2013

Fred Di Giacomo fala sobre seu livro "Canções para ninar adultos"


O escritor e fundador do blog Clube de Ideias, Fred Di Giacomo, fala sobre seu primeiro livro "Canções para ninar adultos" no programa "Arte e Letra" da TV São Judas. Vale conferir o papo.

"Canções para ninar adultos" é um livro de contos cheio de referências pop que funde literatura fantástica com histórias realistas sobre a geração Y. Ora punk, ora free jazz, sua escrita tem arrancado elogios de revistas como Vida Simples, Playboy, Lola e Gloss.

Para comprar, clique aqui.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Fred Di Giacomo, criador do Clube de Ideias, lança seu primeiro livro "Canções para ninar adultos"

Damos um tempo no jejum de posts desse Clube de Ideias por um motivo nobre: o criador deste blog coletivo e um de seus principais colaboradores - Fred Di Giacomo - lançou agora no final de 2012 um livro de contos chamado "Canções para ninar adultos". O livro tem sido bem recebido pela mídia com resenhas e notas em revistas como Playboy, Vida Simples, Gloss, Contigo! e Lola. Alguns contos do livro foram publicados em sites como Papo de Homem, Club Alfa e Papel Pop.

Canções para ninar adultos
`Canções para ninar adultos”, chega às mãos do público em edição caprichada, no formato de compacto de vinil e dividido – como um disco – em lado A e lado B. Os 11 textos do lado A – espécie de contos de fadas pros tempos modernos – puxam para o realismo fantástico, com claras influências de Borges, Kafka, Lewis Carroll e Murilo Rubião. Os 11 do lado B  - feios, sujos e malvados – viram o jogo para os terrenos explorados por Nélson Rodrigues, Bukowski e Rubem Fonseca, carregados de sexo, álcool e hipocondria.


Canções para ninar adultos - Teaser do livro de Fred Di Giacomo from Fred Di Giacomo Rocha on Vimeo.

Jornalistas, hipsters, rebeldes de iPhone e até o escritor Paulo Coelho convivem nos textos ágeis com náufragos, adolescentes de asa e cenários bíblicos. As ilustrações de miolo remetem a discos clássicos (Secos & Molhados, o primeiro dos Ramones), mas trazem escritores famosos no lugar dos músicos originais. No final do livro, o autor oferece um cardápio de músicas (da MPB indie de Otto e Criolo até o compositor clássico Dvorak, passando pelo jazz de Count Basie e o rebolado de Christina Aguilera) pro leitor degustar enquanto chafurda nos continhos caóticos.
O livro já está em pré-venda (autografado) no site da Editora Patuá.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Despedida

Começou porque meu pai teve uma ideia no sertão que é Penápolis. "Queria fazer uma coluna, como se fosse um Clube de Luta, mas um Clube de Ideias - imaginário. Onde os amigos invisíveis se reunissem para filosofar, fumar e devaneiar. Só que nenhum jornal local vai querer publicar."

Achei que seria uma boa ajudá-lo, fazia tempo que meu pai não se empolgava com um projeto assim . E minha mãe também estava pintando e queria fazer contato. E vários amigos designers/jornalistas tinham trabalhos interessantes e pouco divulgados. Seria um blog coletivo. Inaugurado em novembro de 2008.

Foram mais de 20 participantes enviando poesias/ilustrações/contos/vídeos/fotografias/quadros. 132 posts. 6.187 visitantes. 1 edição temática. 1 belo topo feito pela Sabrina Barrios. Uma porrada de comentários e trocas de ideias, e-mails e links.

Mas agora tá na hora de apagar a luz. Eu não estou atualizando tanto, os e-mails foram escasseando, os comentários idem. A tarefa do bloguinho foi bem cumprida. Vou republicar algumas coisas daqui no Punk Brega. E depois de algum tempo fazer um redirect apontando pra esse buraquinho onde amontoo meus projetos.

Concentrar as forças em um só front e continuar lá a divulgação dos colegas talentosos.

Anarquia & Diversão

domingo, 29 de novembro de 2009

Ricochetes de coriscos faiscantes - Rodrigo Gomes Lobo

Ricochetes de coriscos faiscantes.
Esses teus olhos azuis.
Bolas de gude a desnudar o impacto dos vidros em guerra.
Enluarada noite, espuma branca na areia.
Interlúdio entre um medo e uma caverna.

As lanternas sempre se perdem.
As velas e os fósforos são tragados pelo obscuro.
Os dentes se perdem.
De nosso mesmo é só esse ardor aziago.
O olhar baço.
E as gengivas ostensivas.

Esses teus olhos azuis me levaram qual cometa.

Em tua loira cabeleira de perfumes
Na tua axila que destrona campos de rosas
Respiro
E é como se o ar estufasse com lufadas de rojão
Meu peito comprimido de saco de pão amassado.

A melhor coisa que fiz foi esfacelar meu coração em cinzas brilhantes de balão galinha
Só pelo espetáculo desses olhos azuis arregalados

Nos Cuecas Rosas ele é o astro punk brega Axl Magal. No blog Nada Direito é só Rodrigo mesmo, um poeta que engavetou por tempo demais seus versos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Onipresença SMS - Felipe Van Deursen

Daquilo que chamamos indecisão dos diabos de querer estar em todos os lugares, ouvir todas as músicas, esvaziar todos os copos e ter todos os amigos na agenda do celular - mesmo que para isso desembolsemos R$0,33 por mensagem instantânea no plano standard de alguma operadora


Começou aí? Sepultura mais ou menos aqui...
Cheguei agora. Móveis meia boca. Estrutura idem. Gustavo bêbado.
Hahahahaha! Defotnes brutal, sepultura lixo...Derek should aposentate
Aqui máximo park suspendendo. E o mateus pode mandar bem.
Suspendendo?! Mateus é o novo lider!
Estamos molhados depois do splash. chapados. primal scream pra beijar o céu.
Dave navarro de botox, perry farrell ney matogrosso david bowie. Chorei
Bicha
Acho que aqui está mais legal e vc queria estar conosco
Hahahahaha! Agora vem fnm, bicho...Sem condições
Primal scream brutal. Estou louco e beijando. Mara. Vento.
Chuva da porra, me fodi
Aqui tá lindo. Mas a chuva deve chegar pro stooges
Chuva torrencial. Cobriram o palco. Show vai atrasar
Sonic com chuva. Encontramos gustavo. Bêbados
Cara., sem palavras aqui
Raw power, de surpresa. Chupa.
porracaralho!!
Subiram 150 caras no palco aí? Aqui é carisma, maluco!
Ah, tenho nem como explicar aqui... Acabou, chorei...
Mike patton fala portugues
Iggy fala paulista e tem controle sobre 241 Músculos Flacidos.
Hahahahahahahahahahahaha! Ganhou, ganhou...

Inspirado em 23 torpedos trocados entre os festivais Planeta Terra e Marquinaria por Gabriel Gianordoli e Felipe Van Deursen, que assina em seus projetos anárquicos como Clorofila.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Falo na Testa - Frico

Exclusivo! Homem acorda com pênis na testa. Confira todos os detalhes desta trágica história aqui!

sábado, 10 de outubro de 2009

Do amor que dedicamos aos bichos - Cidadão das Nuvens

Do amor que dedicamos aos bichos
- por serem crianças e loucos e
não saberem de nada (e,
com efeito: detestamos os sábios ) -
aproveita-se meu gato e, na calada da noite,
emite a senha para que eu lhe encha o prato.

O faço. E
ao abrir a janela para
que a fumaça disperse
o felino escapa de encontro ao cio.

Nesse jogo de cartas marcadas,
fumarei (ainda que não suporte
o cheiro da fumaça)
quando o larápio quiser, pois
do amor que dedicamos aos bichos
- por serem crianças e loucos -
nasce o desejo: da idosa abandonada
viver um dia mais;
das crianças doentes sorrirem e resistirem ao Câncer;
de
o ambulante que vende cigarros
falsificados,
na calçada paralela,
falar de futebol comigo,
que nem gosto de futebol.

Renato Silva é um estudante de letras, está formando um grupo de poetas em sampa, ama o São Paulo e torresmo com cerveja. Não acredita no homem em si, mas crê na humanidade. Adora que o chamem pelo nome, mais ainda quando pelo "codinome": Cidadão das nuvens. Você pode ver mais poesias dele no seu blog

=>Faça como como o Renato e mande suas poesias para clube.ideias@gmail.com

domingo, 4 de outubro de 2009

Parto Normal - Ana Alice

Fazer do outro sua morada
sem levar de si só a média
mudar-se com todas as arestas
Despreocupar-se com as frestas
Encontrar-se todo na jornada

Desculpar-se de mágoa e destino
Desfazer de si o tom todo trágico
Desmontar problemas como cubos mágicos
Parir a vida como quem pare um menino

Sem curso, enfermeira ou mesmo hospital;
Dar a luz a um amor de parto normal.

Parteira de poesias e ritmos - que tira de sua bateria, Ana Alice evita o estresse com doses de zen drugs e toca nas bandas Milhouse e Liga das Senhoras Católicas. Leia mais textos dela no brog Credencial Tosca.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um ruído para o sex appeal - Mateus Valadares








O Mateus foi a primeira pessoa que eu conheci e achei que era um gênio. Mineiro de BH, formado em design e publicidade, faz ilustras com colagem, tem fala divertida e ideias que o seguem como uma nuvenzinha. Cedeu o trabalho de conclusão da pós pra gente e finalmente estreou aqui no Clubinho.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

De como me tornei serviçal de um vampiro em tempos de gripe suína - Frico Giacomo/Sabrina Barrios

Originalmente publicado em capítulos no blog Punk Brega

Ilustra: Sabrina Barrios/Texto: Frico Giacomo

Era uma descida longa até minha casa. Ficava no largo, depois das obras do Metrô. Um sobrado. Eu morava em cima, embaixo tinha uma loja de armas e munições, na frente um cabeleireiro e uma loja de pesca. Tinha uma doença nova na cidade, uma gripe. "Gripe Suína" chamaram, parece que o governador José Serra disse que você só pegava de porquinhos. A gente não podia “passar a mão nos porquinhos, nem beijar os porquinhos”. Ok, governador José Serra, o Dumba nunca beijou um porquinho e agora estava na fila do hospital municipal de Diadema, com caganeira, dores no peito e febre alta.
Esses políticos são uns imbecis mesmo, não sei por que tem gente que ainda vota. Meu título de eleitor é lá de Luziânia a cidade onde eu nasci. Não conhece? Foda-se. Ninguém conhece aquela porra, só meu pai, um inútil total, que achou que íamos ter uma vida melhor lá. Achou, né? Ele é que encontrou uma vida melhor lá: uma amazonense bunduda, que tinha uma peixaria. Tiveram um caso por 3 anos até mamãe colocar ele pra fora. Ele foi. E nunca mais voltou se mandou pra Amazonas e pau na minha bunda magra. Tive que ficar com minha mãe e minha irmã, Katiúscia. Mas não quero que você tenha pena de mim, ok? Essa história não é pior que as outras. Tem gente que nasce com HIV e dá entrevista rindo na tv. Tem família inteira chacinada e o filho sobrevivente vira ativista de ONG. Eu não virei ativista, nem apareci na tv. Por enquanto. Mas eu era o melhor aluno do colégio estadual "Paulo Maluf", gostava de português e história. Acho bonito quem fala o português direitinho, sem muita gíria, tipo o professor Pasquale lá.


***
_Fala, Magrão, firmeza?
Sou magro. Tenho 1,79 de altura e peso 60kg. Sempre fui assim. Gosto de comer, mas às vezes não dá tempo. Gosto de trabalhar mais ou menos. É bom ter grana pra gastar, é ruim ficar perdendo tempo com trampo. Jogo na Mega-Sena. Trocaria uns dois anos de vida por uns 200.000 reais, fácil. Viver sem ter dinheiro ou ter dinheiro e viver pouco? Prefiro a segunda opção. Mas não tenho a mínima vocação pra bandido, trambiqueiro ou coisa que o valha. Não gosto de sangue.
Chego no sobrado. Ta garoando em São Paulo. Não é novidade. Terra da garoa é poético só pra quem está dentro do carro ou debaixo do guarda-chuva. Podia ter nascido carioca.
-Boa noite, Gusmão
-Boa noite, Fino.
-Vendeu muita arma, hoje?
-Vendi nada, depois dessa lei de desarmamento ta foda, né? Quase ninguém mais tem porte, aí nego prefere comprar no paralelo.
-Pode crer, fora que é mais barato, né?
-Total. Cidadão que quer se defender tem que desembolsar uma pusta fábula.
-Pode crer, vou subir. Boa noite, Gusmão.
-Boa noite, Fininho.
Fininho o escambau! Deixa ele ver meu fininho aqui. Ninguém me chama pelo nome. Mas pelo menos não me chamam mais de Cazuza igual na escola. Os caras ficavam me tirando de aidético e eu, magrelo, tinha que ouvir pra não apanhar. Bando de vacilão. Bom, chegar em casa agora ligar a TV e fazer um rango. To com vontade de ovo frito molinho com arroz. Pô, podia ter um bacon pra fazer que nem café da manhã gringo. Cê ta vendo? Eu não quero muita coisa. Um pouco de bacon já ia me deixar felizão. Coço a careca enquanto penso no que fazer. É gostoso. Às vezes esqueço o que estava fazendo e dou uma coçadinha na careca pra lembrar. Um “agradinho pro cérebro”. É engraçado? Eu sou um cara engraçado. É esquisito? Tá, eu também sou um cara esquisito.
Massa, ta passando filme de vampiro na televisão. Eu curto pra caralho vampiro. Pô, deve ser louco só comer sangue, as minas pagando pau, viver vários anos. E olha só os vampiros: Brad Pitt e Tom Cruise. Será que eu ia ficar parecendo o Brad Pitt se fosse vampiro? Um Brad Pitt com dois dentões. Pô, aí eu saía da seca. Faz uns seis meses que não dou uma. Acho que desde a Tat Boca de Caçapa. Há, que boquinha! Melhor boquete da Zona Sul. O Dumba que me apresentou. Chupou ele também. Aliás, chupou a galera toda. Foda-se. Será que eu ligo pro Dumba? Coitado, com a gripe do porquinho... Será que ele ta se cagando na fila? Nossa, mó vergonha deve ser. Eu colocava uma fralda, eu acho. Mas não ia caber, né? Sei lá, esse ovo ta cheiroso. Vou rangar e depois fumar um Hollywood na janela.
Eu curto essa vista, saca? O largo vazio de noite. De dentro de casa até que a garoa é bonitinha. Estrela não dá pra ver aqui. Mas, também, já vi bastante em Luziânia e estrela é tudo igual, parece uma árvore de natal gigante. Eu gosto de Natal. Mas não por causa do Jesus. Por causa das propagandas da Coca-Cola, saca? Dos ursinhos brancos, que tinha, lembra? Porra, era mó legal. O clima do natal é massa, né? As lojas ficam abertas até tarde, tem comida boa, mas de Jesus eu não gosto muito. Esse lance de religião é um saco, ta ligado? Minha mãe é crente. Putz, ela não queria que a gente trepasse, que eu fumasse, que bebesse. Nossa, mano, um pé no saco. Minha irmã é meio crente também, mas ela pega uns caras. Tô ligado. Assim, não que ela seja safadona, saca? Estilo cachorrona, Mulher Melancia, essas porras. Ela é sussa até, mas namora uns caras ai. Bom, eu acho religião meio que coisa de ignorante. O professor de história descia a lenha em religião, inquisição, alcorão, essas coisas. Ele era um cara inteligente, saca? Tipo filósofo, barbudo, óculos. Pô, eu curtia. E tive um amigo também. O Igor. Mano, aquele cara era do mal, do mal. Tipo vampirão, pele pálida, só falava de capeta, bíblia negra, fez pacto de São Cipriano, mó sacrilégio. E o cara era cabeça, hein? Putz, lia altos livros, “Os Divina Comédias”, “Diário de um Mago”, “Brumas de Avalon”, o cara era foda. Por isso que eu já fico esperto com esse lance de religião.
Olha ai, o vizinho estranhão saindo de casa. Coroa bizarro, não fala com ninguém. Sai pra dar rolê com o rotweiller de noite, recebe umas putas na madruga, que eu to ligado, mas não cumprimenta ninguém, quase não sai. E tem grana. Pô, e o mané não fecha a casa com chave. Sobradinho velho, no meio das lojas. Só um doido desse pra ter grana e morar aqui no largo. Se bem que com o metrô sendo construído vai valorizar. Certeza. Ele deve estar apostando nisso pra fazer mais grana. Rico é tudo esperto. Quer saber, vou dar uma entrada na casa dele. Não tenho nada pra fazer. E ele sempre demora uma meia-hora pra voltar. Como diria eu mesmo: Foda-se.
***
Putz, to com um pelo encravado na bunda que ta chato. Olha só, o velhote deixou a porta aberta. Há, há, há, que otário. Uma coçadinha na cabeça. Que eu vou fazer primeiro? Ah, pode crer, ver o que tem na geladeira.
Nossa, mas essa casa parece um museu. Vários quadros antigos, mobília de madeira, isso deve ser muito das antigas. Pô, e deve valer uma nota. Deixa eu sentar aqui nessa cadeirona. Pô, foda. E uns livros em várias línguas. Muito louca a sala. Onde será que é a cozinha? Quadro, quadro, quadro, espada. Espada?! Caraca! Essa eu vou levar pra casa. Igual daquele filme “Coração Valente”. Ah, e olha a sala de TV! TV de plasma. Mano, eu vou conversar com os caras do movimento pra roubar esse tiozinho. Não, eu não vou roubar nada, mas sei lá, fazer uma preza com os caras, às vezes eu descolo um troco nessas. Ah, e tchan tchan tchan tchan: a geladeira está aqui. Mano, tomara que o cara tenha bacon. Tô na instiga pra comer um pouquinho.
_Mas que porra é essa?! Só tem carne e suco de tomate na casa desse velho?
Putz, alguém mexeu na porta, acho que vou...
_Se esconder? Não dá mais tempo, amigo...
-Caraca, como você chegou aqui? Larga o meu pescoço, velho maldito, eu só estava olhando, não ia roubar nada, eu juro.
-Ah, é? E o que você estava fazendo na frente da minha geladeira? Calma, Cérbero, pare de latir.
-Meu, deixa esse cachorro longe de mim, pelo amor de Deus. Se esse bicho me morde ele arranca uma perna.
-Você deveria temer mais o que eu posso fazer do que as mordidas de Cérbero.
_Ah, é? Que você vai fazer? Comer minha bunda?
Naquela hora, não sei como, mas o velho me jogou longe. Me arrebentei todo no chão e ele foi metendo bicas em mim, com aquele cachorro gigante latindo, me derrubando escada abaixo rumo ao porão. O lugar tinha um cheiro esquisito, mistura de açougue com mofo, umas teias de aranhas escrotonas e parecia que não era limpo há um bom tempo. Tentei me levantar, cuspindo sangue, mas meu corpo se paralisou quando vi em minha volta um monte de corpos pendurados em ganchos. Não sei se eram homens, ou bichos, talvez os porquinhos do governador José Serra. Travei. Cocei a carequinha pra lembrar o que ia fazer, mas o velho e o cachorro não me deram folga. Num salto ele estava em cima de mim, eu com as costas no chão, ele com os joelhos no meu ombro. “Me fudi”, pensei, “esse velho veado vai me currar e depois pendurar num desses ganchos”. Mas comecei a sacar a fria que eu tinha me metido de verdade, quando olhei pra cara dele. Não era humano. Era bestial. Presas afiadas escapavam de seus caninos, seus olhos estavam vermelhos, injetados de sangue, seu hálito exalava morte, suas mãos eram garras de um predador pronto para matar.
_ Satanás _ gritei tentando fazer uma cruz com os dedos das mãos _ que demônio é você?! Um vampiro.
_Ha, há, há, seu mortal imbecil, só agora você percebeu aonde se meteu? Confesso que esse seu porte físico de esqueleto nunca me atraiu, mas agora que você mexeu na minha geladeira e descobriu meu segredo, não vou ter alternativa...
_CARACA, seu Drácula! Me dá um autógrafo, pelamordedeus! Esse é meu último pedido.
-Imbecil, pra que você precisaria de um autógrafo se vai morrer?
_Sei lá, eu ia chegar no céu com moral. Tipo, “saca só São Pedro, tenho um autógrafo do conde Drácula”.
_Tolo, a morte não é como imagina sua religião. E eu não sou Drácula. Sou um vampiro menor, atolado nessa decadência brasileira.
_Pô, eu sempre gostei de vampiros. E na verdade eu não tenho religião não, mano. Digo... Senhor vampiro. Pô, ser morto por um vampiro vai ser style, mas você não precisa de um ajudante, não? Nos filmes de terror tem sempre um cara feio que fica tomando conta do caixão durante o dia. Feio eu já sou, só falta...
_Um servo? Sim, talvez um servo fosse útil para mim. Você seria meu carniçal, eu poderia te dar algumas gotas do meu sangue, pra você experimentar um aperitivo do meu poder imortal. Mas não sei, você é tão sujo e asqueroso.
Confesso que ser chamado de sujo e asqueroso por um vampiro não era a coisa mais irada que poderia me acontecer. Na verdade era um lixo, mas minha auto-estima era que nem o clima no Pólo Sul, nunca saía dos valores negativos. E nesse momento o velhote sanguessuga já não estava mais andando sobre mim e sim, dando voltas pelo porão, observado pelo fiel Cérbero.
_ Olhe, magricela, eu realmente preciso de um ajudante. Mas vou ter que testá-lo. E, entenda, sua vida humana terá acabado se você se juntar a mim. Você estará vendendo sua alma a Lúcifer por um preço barato.
_Doutor, minha alma não vale muito mesmo. E eu sempre quis que alguma coisa legal acontecesse na minha vida. Isso é a coisa mais empolgante que podia me acontecer, saca? Trabalhar pra um vampiro! Eu sempre soube que ia ser alguma coisa na vida e, como eu já disse, eu não curto religiões e sempre me amarrei em vampiros. Tá, eu não gosto muito de sangue, mas quando você for sugar alguma donzela virgem eu posso olhar pro lado.
_Donzelas virgens não são tão fáceis de encontrar hoje em dia...
_Por isso que você ta sempre acompanhado das minas do “Jacksons’s Girls”, né? Tô, ligado, eu sempre vejo o movimento das primas aqui na sua casa.
_Eu pago bem para sugar o sangue delas.
_E você não as mata depois?
_Não, eu sou quase vegetariano. Está vendo essas carcaças aqui? São porcos...
_E você não tem medo da tal gripe suína?
_Imbecil! Vampiros não tem sistema respiratório, vampiros não pegam gripe. Vampiros estão mortos. E a gripe suína não é transmitida por porcos, seu idiota!
_Putz, é mesmo, que vacilo. Bom, mas acho melhor a gente acabar com essa discussão que daqui a pouco vai amanhecer. Vai pro seu caixão que eu fico de guarda aqui.
_Você acha que eu confiaria tão inocentemente, num humano desprezível que veio saquear minha casa.
_Pô, cara, se não confia, então, me hipnotiza, me suga, me sodomiza. Sei lá, o que vocês vampiros velhos gostam de fazer. Eu já disse, estou disposto a vender minha alma, bem baratinho pra você, em troca de um trabalho, um lugar pra dormir e umas gotinhas desse seu suco de sangue mágico. É tipo Viagra isso? Tipo maconha, tipo o quê?
_Meu caro, isso lhe fará ter as mulheres mais belas e mesmo que você quisesse as mais horríveis elas pareceriam as mais belas pra você.
_Pô, mas isso é tipo cachaça, então...
_Chega de imbecilidades. Sua alma não terá salvação. Que geração perdida. Goethe nunca teria escrito “Fausto” se conhecesse você.
_Fausto Silva?
_Esqueça, imbecil. Você começa a trabalhar hoje. Um ser tão tosco só poder ser um servo obediente e fiel.
***
Depois do meu primeiro “expediente”, fui até minha casa e levei tudo que tinha pra morada do meu novo “patrão”. Comprei no camelô um óculos escuro invocado, tipo Ray-Ban, e descolei uma arma que o Gusmão arranjou mesmo sem documentação em nome da nossa “velha amizade”. Falei pra mamãe que agora era segurança e talvez ficasse sem dar notícias por algum tempo. A Katiúscia estranhou que contratassem alguém tão magro como eu para ser segurança. Minha vida sexual continuava nula, mas eu estava curtindo essa “nova fase”. Pena que não pudesse abrir o bico com ninguém, com o risco de que o velho arrancasse minha cabeça. Dusseldorf era seu nome. Demorei um bocado pra conseguir pronunciar. Ele me explicou que tinha aquele sotaque estranho porque era alemão. Tinha sido “convertido” no começo do século XX, o que para um vampiro era pouco tempo. Mudara para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial(período no qual virou uma espécie de hiena carniceira, só se alimentando dos mortos em combate). Logo se estabeleceu em São Paulo, no bairro de Pinheiros, que segundo ele é o mais antigo da cidade. Parece que tribos indígenas eram aglomeradas ali, pelos jesuítas, em volta da igreja do Largo de Pinheiros. Mas isso muito antes dele chegar aqui, lá pelo século XVI. Eu gostava do vampirão porque ele era inteligente e me ensinava uma porrada de coisas, mas não confiava em mim e queria me testar antes de me dar umas gotinhas do seu super-sangue.
_Saco de ossos!
_Sim, Dusseldorf.
_Você pode me chamar de mestre Dusseldorf? É assim que os lacaios tratam seus amos.
_Cara, a Lacraia era de uma cidade perto da minha, sabia? Ela nasceu em Promissão.
_Eu disse lacaio, seu energúmeno.
_Ah, desculpe...
_Enfim, saco de ossos, vou precisar de sua ajuda.
_Tá, o que você quer?
_Dois porcos frescos para eu sugar seu sangue.
_Putz, e as vagabas do “Jackson’s Girls”?
_ Vagabas? Que linguajar chulo, saco de ossos. Eu deveria drená-lo agora mesmo e deixar sua carne barata para Cérbero.
_Foi mal, foi mal... Mestre.
_Duas garotas do “Jackson’s Girls” estão com suspeita de Gripe Suína. Ele preferiu fechar a casa.
_ Puta epidemia louca, né?
_ É bem melhor do que a Espanhola, e eu sobrevivi a ela mesmo já tendo uma certa idade...
_Com quantos anos você, você... Se converteu, passou dessa pra melhor, começou a curtir mais pescoços do que mulheres, sei lá.
_ Cinquenta! Mas chega de suas imbecilidades! Arrume as carcaças de porco frescas para que eu ainda possa sugar seu sangue quente. Rápido!

***
Puta merda, como eu ia arranjar uma carcaça de porco fresca? Era mais fácil arrumar um porco vivo. Será que os vampiros vegetarianos não matavam nem animais? Eu, hein, puta boiolagem. Aliás, eu tinha quase 70% de certeza de que o Dusseldorf dava marcha ré no quibe cru. Ele passava o dia ouvindo uns compositores clássicos “barulhentos” como um tal de Arnold Schoenberg e também o Wagner. Eu tomei uma coça uma vez porque disse que o Schoenberg era pior que rock ‘n’ roll. Ele odiava rock ‘n’ roll, dizia que a música tinha morrido com “os ritmos primitivos do jazz”. Rap e funk para ele não mereciam nem ser discutidos. De samba ele gostava, por ser uma “autêntica forma de expressão tribal”. Inclusive, ele tinha uma amigona que adorava samba e tinha um terreiro. Era a Mãe Dirce, que vendia umas ervas na carrocinha lá no Largo. Eu tinha medo dela e não curtia muito quando ela ficava fumando o charutão e trocando uma ideia com o Dusseldorf. Pra ele não fazia diferença, né? Ele não respirava mesmo, a fumaceira do charuto nem dava nada. Segui com meus óculos escuros em direção à Avenida Rebouças. Eu ia ficar de tocaia em frente ao açougue esperando os caras trazerem as carnes. O caminhão passava cedinho, no começo do dia. Pedi um conhaque pro dono do bar e esperei.
Foram uns três conhaques até ela aparecer. Não sei se era emo, gótica ou punk. Era uma dessas branquelas que curtem trepar com defunto em cemitério. Mas era linda. Cabelo azul, bocona carnuda pintada de preto, sombra no olho, peitão apertado num tomara que caia, micro saia mostrando as coxonas brancas e cortunão com salto. Fiquei duro na hora. Pensei: “Putz, magrelo, não vai esquecer os porcos do sanguessuga”, mas aí, a minha seca falou mais alto. Meses sem dar uma trepada. Conhacão na cabeça. Sabe como é? Foda-se.
_E ai, gatinha, ta bebendo o que?
_Rabo de galo, to sem grana.
_Oh, irmão, pega pra gatinha o que ela quiser.
_Tem vinho ai? _ ela falou com seu jeito blasé.
_Vinho pra gatinha, irmão.
_ Você usa sempre óculos escuros de noite?
_Eu uso, e você usa sempre batom preto?
_Sim.
_Hum... Você é emo?
_Posso quebrar essa garrafa na sua cabeça?
_OK, hum, você gosta de vampiros?
_Você não tem cara de ser jogador de RPG...
_RPG?
_Esquece...
_Hum, bom... E se eu dissesse que conheço um vampiro?
_Hum, bom... Eu diria que você é louco.
_Bom, ele se chama Dusseldorf e vai me dar um pouco do seu sangue vampiresco pra eu beber, se eu levar dois porcos frescos pra ele.
_Dusseldorf? Como no filme? Gostei da sua criatividade... Seus óculos são Ray-Ban?
_ É, são... Porque você não toma mais um vinho, me ajuda a pegar duas carcaças de porco e depois vai comigo pra casa do “mestre” pra ouvirmos um Schoenberg?
_Carcaça de porco, vinho e expressionismo alemão? Cara, você é uma das figuras mais engraçadas que eu já conheci... Só espero que esse teu mestre do RPG ai não queira me sacrificar em algum ritual maluco.
“Quem vai te devorar, gostosa, sou eu”.
***
Tive que pagar quase uma garrafa de vinho pra emo gostosa resolver ir comigo atrás das carcaças frescas dos porquinhos do governador José Serra gripado. Sabe? Eu sempre me sinto vivo quando estou bêbado. É o único momento em que eu realmente acredito que as coisas vão dar certo. Nem gripe, nem vampiro, nem Aids, nem fome, nem bala, nem político ladrão, vão me derrubar. To me sentindo corajoso pacas. E hoje essa branquinha do cabelo azul vai sentir meu foguete aterrissando no meio das pernas dela. Pode crer, olha lá os malucos deixando as carnes no açougue. Porra, tudo que eu queria era poder pegar os porcos sem ninguém perceber, mas não vai ter jeito. O açougue vai abrir já-já.
_Passa os porcos pra mim!
_Abaixa a arma rapaz!
_Abaixo o caralho! Vou levar duas carcaças de porco agora. Deixa eu ver se ta fresco.
Dei uma mordidona no porcão e a emozinha começou a vomitar e gritar que “aquilo era nojentoe ela ia correndo pra casa”. A vadia nem me avisou que um dos caras do matadouro estava chegando atrás de mim com um pedação de carne e deu com tudo na minha cabeça. Foda-se.

Na real, foda-me.
***
Na cadeia as coisas até que estão sussa. Ninguém quer chegar perto de mim porque acham que eu sou louco. Digo que meu mestre vampiro vai aparecer a qualquer hora pra me salvar, mas a verdade é que às vezes acho que ele inventou toda essa história só pra se livrar de mim.

Apesar do Clube de Ideias andar meio parado, Frico Giacomo e Sabrina Barrios não descansam. Uma em Manhattan, o outro em São Paulo, sempre mantendo flickr e blog atualizados.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Cortiço Brasil - Vinícius Luz

Cortiço Brasil (trailer) from Vinícius Luz on Vimeo.



Vinícius Luz, formado em Rádio e TV na Unesp-Bauru, dirigiu o primeiro longa bauruense com algum incentivo municipal, dívidas pessoais e prazer de fazer cinema. O filme roda nas mostras de Santos,Rio de Janeiro e Cidade do México.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Poesia da minha irmã - Frico Giacomo

-Mais poesias

Uma parceria e homenagem com Marina Di Giacomo

Minha irmã pensa que
É um risco abstrato
Numa natureza morta
Num dia em que chovem
Lírios e metais pesados

Acho esse pensamento equivocado

Nossa família parece toda
Uma natureza coloridamente abstrata
Rodeada de uma sociedade morta
Que ignora
Mas lá fora
A Esperança chove
E seria bom que a gente
Se deixa-se banhar um pouco

E ser - então
borrão

-Drogas

Frico já foi punk, anarquista, jornalista, baixista, poeteiro, ator, filho, namorado, corno, cafajeste, culpado e inocente. Mas nunca deixou de escrever e sonhar. Tudo isso no blog Punk Brega

domingo, 2 de agosto de 2009

Dia de fúria - carlotas

Mais uma descoberta by Sabrina Barrios

carlotas é paulista, paulistana e são paulina, mas há alguns meses está morando em NYC estudando design gráfico para ilustradores. com muita cor e sarro ela divulga seus últimos trabalhos no blog: carlotas.com.br/blog

-Mais ilustrações

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sobre matadouros e fervos - Eleutherius

Na pequena rotina urbana, nas frases repetidas diariamente, na mesma face que você admira no cotidiano é que está a verdadeira felicidade. Quando nos cansamos de tudo por algum motivo e tentamos quebrar a mesmice, nasce uma falácia, uma ilusão que a todo custo sustentamos ate que finalmente ela desintegra no ar, abrindo um abismo no qual nossa matéria chega ao final em extremo desespero, pois não há como sair desse buraco...Assim foi o inicio e o fim da minha tentativa frustrada de mudança, rsrsrs, so não sei pra onde, para melhor ou pior, afirmativamente para a regressão...

_ Fala jovem, como você ta irmão?
_ Vou indo cara, com muitas contas pra pagar, a facul atrasada, mas vou levando...
_Sem trampo?
_To sem trampo, so fazendo alguns bicos so... Ta difícil!!!
_ Verdade? Meu, faz assim, me da uma ficha sua que levo ela pro frigorífico, ta pegando gente lá, e você ta fazendo facul irmão, você consegue um trampo bom la!
_ Puta, demoro! Passa amanhã que já era, te dou a ficha e você leva pra mim.
_Fecho truta!!

Sair daqui, conhecer novas mulheres e morar sozinho, caralho que louco que vai ser...Num piscar de olhos desbravo uma nova cidade com muitas esperanças na bagagem, e algumas fotos velhas, porem uma chance de mudança, afinal quem não quer bens materiais, se destacar na multidão, um bom carro mesmo que financiado com a prestação valendo a metade do salário, ou andar de ouro e prata, com roupa de grife e vagabundas no pé? O subdesenvolvimento de um lugar se mede pela pequena ambição material, e eu estava começando a entrar no maldito jogo...

_ Ou Magrelo, vamos fazer um fervo hoje aqui na republica?
_ Opa, vamos sim Quadrado, e que você acha Tio?
_ Ah cara, arrumando o barraco depois, ta firmeza...Só fala pro Careca não fica rebolando que nem uma biscate quando tocar funk.
_Vai se fude, as minas gostam, danço mesmo e ai, no final da noite “como” várias, rsrsrsrs.
_Puta Careca bem que a gente podia arrumar uma grana pra comprar uns panos pro fervo né?
_ È mesmo Magrelo, com esse salário de merda nem dá pra pagar a corrente de ouro e pisante da Nike, vamos ter que comprar roupa da 25 mesmo...
_Você ta ficando louco, pra mim tem que ser patrão so coisa original... Peraí que vou arrumar um esquema bom pra nós, sem massagem, dinheiro não vai faltar...

A pobreza e o regresso intelectual, sem perspectiva a única coisa que importava era mulher e dinheiro o resto era resto, Nietzsche era pra mim apenas um velho de bigode, e Lênin um tiozinho qualquer, paradigmas? Meu exemplo agora era o desossador classe A que andava de carro com um som louco cheio de vagabunda dentro.

_ E ai Carcaça ta curtindo a festa? Ta mil grau né?
_Vixi mil grau, então Careca aquela mina tah querendo ferve com você!
_Verdade mas e ai, ela vai contar pra Regina se eu ficar com ela?
_Claro que não, faz assim, vou falar pra ela ir lá no fundo do barraco ai já era ninguém vai ver a cena...

Puta que o pariu, se eu pudesse voltar no passado, primeiro que nunca teria saído daqui, e depois não teria aceitado o pedido de uma qualquer...Um inferno astral, entre anjos e demônios o arcanjo Miguel perdeu, traição, mentiras e meu caráter que ate hoje não consigo reestruturá-lo. De cabelos longos e vestido preto, salto e uma cara de santa...São Jorge tentou me defender desse Exu, cai nas suas garras...Meses se passaram com a Sandrinha, meses de ilusões...

_ Não quero mais ficar assim Careca, quero namorar, ter uma família, alguém que ajude a cuidar de minha filha...
_ Mas você me ama a esse ponto?
_ Claro que eu amo!!!
Amor? Não sei o que é isso até hoje, por duas vezes tive a certeza de conhecer seu conceito, hoje eu sei que isso nunca existiu e nem vai existir, é apenas uma palavra, falar para qualquer um é fácil...

Assumi a porra desse namoro, hoje eu sei como Jesus se sentiu quando Judas o traiu e depois o filho da puta ainda o beijou, ainda bem que Jesus não pegou baba de ninguém ou fez chupeta de tabela rsrsrsrsr, espero que eu também não rsrsrsrsr. Vai saber!

Noites e noites de festas, dinheiro para bebidas e bancar as putas, a republica so tinha patrão, era tudo nosso, aquela cidade tava dominada... Ate que de patrão viramos empregados...

_ Caralho que vontade de jogar esse celular na parede, já são 05:00h? Puta merda, to atrasado! Acorda Tio, tamo atrasado pro trampo.
_ Ou Careca vai gritar com a sua mãe já to levantando porra. Nossa mano olha q fizeram com o banheiro, a festa foi foda ontem...
_ Nossa Tio olha só, o Magrelo com uma mina pelada do lado!!
_Caralho Careca, será q da tempo de comer ela também?
_Desencana que tamo atrasado...

Se o trabalho dignifica o homem? Não sei, so sei que o deixa escravo do tempo, do capital e dos seus próprios desejos, sem vontade de nada, a não ser de chegar em casa e dormir, ou para os mais animados beber e dormir...

_ Trampei hoje heim, Deus me livre, to morto nem vou pra facul, ou Quadrado amanhã vence o aluguel.
_Firmeza, ta aqui a minha grana e a do Tio...
_ E a do Magrelo?
_Vixi mano, ele sumiu né?
_ O Tio cadê o Magrelo?
_ Olha ele chegando ai...
_Firmeza rapaziada? Ou Careca, a grana do aluguel deu mi, vou ter q fazer um corre pra ter o dinheiro...
_Caralho meu, e aquele dinheiro que você recebeu?
_Gastei na porra do fervo, to devendo pro maluco da biqueira ainda.
_Puta que o pariu se vira, faz seu corre!!!

Dois meses de aluguel atrasado, tava foda, sem comida no barraco, e os cascos das festas ao lado da geladeira... Amigos? Nenhum! Namorada? Tava comigo por diversão. O barraco virou ponto de fervo, festas, pessoas entravam e saiam, mas ninguém perguntava se a gente precisava de alguma coisa. Não há sinceridade, amizade, amor, na noite, apenas putas, bebidas, drogas e a autodestruição do ser humano, nada mais.
Noites chegavam, e a estória repetia, de manhã trampo, a noite namorada e fervo, estudar? Tava difícil, sem ânimo, comecei a se cansar, até que o inesperado me libertou...

_ Mas um dia de trabalho em Sr.João?
_Sim, mais um dia...
_Ou Careca, pega a paleteira lá e desloca aquele engradado de costela pra produção...
_Sim senhor, vou lá.
_ Mas vai rápido porque já ta faltando a matéria prima.
Velho Filho da puta! Que vontade de grudar na garganta dele.

Peguei o tal engradado de 600kg no macaco hidráulico, e fui empurrando na máquina, até que durante o carregamento ao virar dou de cara com outra paleteira, so que essa com o peso de 1 tonelada, o babaca que tava guiando não me viu e direcionou ela do meu lado, resultado, minha perna foi esmagada, rompimento muscular da coxa, quase rompe a artéria do femoral, acidente de trabalho.
Nessa hora desmaiei e passou um filme na minha cabeça, qual o motivo que me fez passar por tudo isso? Sem arriscar uma explicação filosófica ou religiosa, a única fundamentação para tal passagem sombria dessa insignificante existência é a chamada cagada humana, pois a burrada de tentar algo que logo de cara você percebe que não vai dar certo é uma verdadeira cagada, e assim caguei no meu próprio pau em ato de malabarismo, ferrando por momentos a minha vida.

Após ao acidente me distanciei de todos, de festas, e da faculdade, como um inútil eu fiquei a espera de um milagre, ate que retornei ao meu lar, e pela primeira vez senti saudade da rotina, aquela que eu odiava passei a ser apaixonado e dei valor nas pequenas coisas que me rodeavam.

Gilvan, vulgo Eleutherius, foi baterista da banda Militantes, cantou rap, participou do movimento estudantil em Penápolis e foi segurança dos mais variados tipos de estabelecimento. Faz poesia boêmia e marginal no blog Cicatriz Urbana

=> Quer ter seus contos publicados no nosso clube? Mande e-mail para clube.ideias@gmail.com

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Minhas Férias - Ana Alice

Da série "Auto-retratos" do Clube de Ideias


Sou feita de leões e demônios que só se acalmam ao som de tambor. Adoro chocolate e molho de pimenta, cada um ao seu tempo. E acho que água e tequila são fundamentais para o bem-estar de uma alma na Terra. Escrever é pra mim hábito, pensar é exercício e conhecer-se uma jornada eterna, interminável e necessária para que o dia seguinte venha. Tenho uma série de famílias espalhadas pelo mundo e aprendi a fazer de cada nova cidade minha casa, mas descobri em São Paulo meu lar. Adoro andar pela boemia da Augusta mas me faz falta uma casa com árvore e cachorro. E não acho impossível conseguir tudo junto. Puxei da minha mãe a arte de fazer tudo de um jeito diferente. E do meu pai, a fé de que sempre há um jeito de fazer. Descobri na música a capacidade de me comunicar de um jeito que o jornalismo, minha profissão de sangue, nunca me deixou fazer. E descobri no jornalismo a possibilidade de falar de música de um jeito que minha habilidade como baterista nunca me permitiu. E a vida, pra mim, é fazer o coração bater sincopado, não importa o tom.

Ana Alice Gallo nasceu em Ribeirão Preto, vive em São Paulo e é canhota, além de escrever poeminhas bacanas, é baterista e jornalista. Evita o estresse com doses de zen drugs e toca nas bandas Milhouse e Liga das Senhoras Católicas. Leia mais textos dela no brog Credencial Tosca.


segunda-feira, 20 de julho de 2009

Seus cabelos vão ficando brancos - Frico

Da série "Auto-Retratos" do Clube de Ideias:

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Nasci numa época de esperança, ano das Diretas Já, ano do caos de George Orwell
Ditadura militar desmoronava como o muro
que ruiu no ano em que um operário quase virou presidente da República
Não lembro muito do útero, só que gostava muito de lá. Sentia-me protegido
Às vezes queria voltar pro útero, que parecia ser meu verdadeiro lar

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Migrei para o interior, onde rolei na relva verde e me acostumei com o luar estrelado do
sertão
Li meu primeiro livro com 6 anos e não parei nunca
Meu pai lia muito todos aqueles nomes esquisitos como Freud, Nietzsche, Marx e Henry Miller
Não sabia se Eça de Queirós era homem ou mulher. Que pessoa é Eça?

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Meu pai lutava judô e minha mãe pintava quadros psicodélicos
Ela era bonita e nos colocava para desenhar ao som de Pink Floyd
Eu achava Andoniran Baborsa engraçado e ainda acho, eu tinha um cachorro vira-latas e
nosso bairro era um pouco feio
Eu não podia brincar na rua como os vizinhos porque era perigoso. Ser atropelado. Um cigano.
Um tarado.
Meus vizinhos pareciam com os pobres que eu via na televisão

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

O anarquismo vinha depois do comunismo, que vinha depois do socialismo, que vinha
depois da derrota do capitalismo.
Mas os russos entregaram os pontos de vez em 1991. Assisti as Olimpíadas de 1992 sem a URSS
A copa de 1994 é nossa, o Brasil é tetra e eu sou muito perna de pau.
Sempre fui o último a ser escolhido na Educação Física.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Estudei em escola pública dos 5 até os 9 anos
Odiei a escola de freiras onde meus pais davam aula.
Eu era bolsista, ateu e não sabia jogar bola. Era estranho e diferente.
Meus pais eram estranhos e diferentes e ninguém no interior entendia a gente.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Eu passei recreios inteiros sozinho lendo Gulliver
Eu esperava a entrada para aula, sozinho, lendo Graciliano Ramos
Eu me divertia sozinho lendo gibis do X-Men.
E eu só tinha 10 anos.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Mutações em minha carne: estiquei, emagreci, desafinei. Pelos desabrocharam
Tudo antes dos outros.
Uma menina disse que meus olhos eram bonitos. Mas só os olhos.
O irmão da Sabrina Sato disse que eu tinha cara de rato.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Me apaixonei pela primeira vez com 13 anos. De verdade. Pela menina que todo mundo se
apaixonava.
Ela era loira e tinha uma bunda redonda, grande e bonita. A maior da sala.
Eu gostava das bundas. Bastante.
Escrevi poesias pra ela.
Versos de amor não eram meu forte...
Escrevia porque a vida me angustiava e, se fosse feliz, não escrevia mais nada.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Pilhas poeirentas de quadrinhos de super-heróis, RPG e... A INTERNET.
Tinha mulheres com bundas grandes lá e elas gostavam das minhas poesias.
Me apaixonei pelo rock 'n' roll em 1996. Perdidamente.
Criei um fanzine em 1997 com um amigo e meu irmão.
Em 1998, comecei a tocar violão.

****

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico
Minhas calças se rasgaram, os fios de cabelo se espetaram e um brinco se alojou em minha
orelha esquerda.
Eu era punk, como aqueles que eu via na tv. Eu era alguém e tinha um grupo.
As pessoas tinham medo de mim, e eu gostava. Fiz outro furo na orelha e comprei um bracelete.
Toquei em palcos imundos dos subúrbios, em praças e em centros culturais.
Pulei, gritei e tive convulsões públicas para animar platéias de meia dúzia de pessoas.
Tive bandas, zines, programas na rádio e meu primeiro romance. Durou 3 meses.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Aos poucos entendendo as mulheres.
Adeus mãe gigante, grande, acolhedora, tribal, arquetípica, freudiana.

***

Crescer dói. Descobri que morava na periferia. Um amigo me disse.
"FrIco G mora num lugar perigoso".
Tinha pessoas pedalando de volta para casa às 18h, velhos conversando na calçada
Um vizinho era lixeiro, mas depois foi preso. Polícia passa. Boca de fumo do bairro. Mas nunca
prende ninguém.
Conheci garotos que já tinham vivido mais que homens.
Um cara da classe mata alguém. Outro internado em uma rehab. Menino assalta venda
com uma arma.
Pobre demais pra ser branco e claro demais pra ser um negro.
Queria um lar que não fosse mais um útero.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Pais rígidos. Castigo.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Assisti a queda das Torres Gêmeas na escola e as pessoas comemoraram.
Minha tia americana ligou chorando pra minha mãe.
Me arrependi
Senti o grande império WASP ruindo. Como um rato que rói a roupa do rei de Roma.

***
E, pesando 59 kg, eis o primeiro lugar em uma faculdade pública de jornalismo.
Comecei a beber. Comecei a viver.
Aos 18 anos, vida ganhava cores e cheiros.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Voei até os EUA e freqüentei convenções anarquistas e shows de hardcore.
Tive medo de avião. Tive medo de morrer. E tive medo da vida.
Conheci pessoas maravilhosas, que amei como irmãos.
Conheci mulheres maravilhosas, que amei ou não.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Participei.
De protestos, trupes de teatro, bandas de rock, festas, gangues de discussão de filosofia, programas de tv e filmes amadores.
Vivi 40 anos em 4

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Acreditei no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, onde conversei com pessoas de todos os continentes que acreditavam
Que um outro mundo era possível
E eu ainda acredito. Você não?

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Dormi com as mais feias e as mais bonitas. E as pintei lindas.
Tive a mulher que achei que não teria e a perdi.
Chorei muito, mas fui mais feliz do que triste.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Pânico. Mãos formigando, taquicardia. Achei que ia morrer.
Me arrastei por seis meses em direção a vida de adulto.
Cortei o cabelo, arrumei um emprego, entrei no túnel do metrô imergindo em depressão
A cidade de São Paulo era cinza e fedia como merda, como morte, como dor.
No Butantã mendigos alados e ratos dilacerados faziam coro com as putas tristes, os travecos
de peruca
Os vendedores ambulantes, os botecos imundos, os porteiros nordestinos, os malucos de rua,
as crianças ranhentas.
Eu voltara à miséria, comendo um prato de cinco reais com tomate, cebola, arroz, feijão e um frango horrível.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Mas ganhei dinheiro, vendi minhas letras e ideias por um preço razoável
Viajei, então, e pude ver o mar. Foi lindo. Toda aquela imensidão azul. Penetrou em mim.
Lágrimas lubrificaram o âmago.
Achei uma mulher com asas que voou comigo e tive que abandonar as outras por justa causa.
No começo foi difícil, mas aprendi que fidelidade acontece por vontade, não obrigação.
Acalmei meus demônios internos em sessões de terapia, aulas de Yoga e noites com minha
preta

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Expulsei Édipo de Tebas aos bicudos no cu.
Doeu
Aceitei que podia ser feliz e ter um pouco de dinheiro
Mas nunca desisti.
Continuo sendo uma fábrica de sonhos e ilusões.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Assisti ao Pânico em SP tocado pelos ataques do PCC
Vivi os tempos da Gripe Suína, o medo de uma epidemia, a crise financeira de 2009.
Errei feio, pedi perdão, me senti culpado e chorei
E escrevi, e li, e gozei, e amei, e bebi, e fumei, e dancei, e abracei, e sonhei

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Sigo a sina

Estou há mais de dez anos tentando escrever poesia
Os cabelos estão ficando brancos, mas as palavras insistem em soar vazias.

Frico escreveu esse punhado de versos ai em cima. Ele andou lendo muito Walt Whitman, Ginsberg e Ferlighetti e por isso fez um poema tão grande. Leia mais trabalhos dele aqui. Ah, ele também tem um blog, o Punk Brega.

sábado, 18 de julho de 2009

Cosmopolitan - Sabrina Barrios



-Mais ilustrações da Sabrina.

Sabrina Barrios,designer e ilustradora, fez a biografia dela de hoje. De hoje, porque representa como ela se sente agora, depois de ter saído do Rio Grande do Sul, morado em São Paulo e aterrisado em Nova York - uma terra cheia de formulários. Alguns meses atrás o desenho poderia ter sido diferente. Mas não é assim também com nossos retratos fotográficos?

domingo, 12 de julho de 2009

Indigente é

Da série "Auto-retratos" do Clube de Ideias

Uma parafernalha sucateada de átomos, genes, hormônios, ideias e emoções bizarras, dentre outras bugigangas de utilidade duvidosa e pouco sustentável ao planeta.

Encaixam-se desordenadamente como peças feias e desproporcionais. Algumas já vieram com defeitos e outras estão enferrujadas. Mas as peças funcionam para os personagens no cotidiano. Que vivem, morrem e vivem.

Se parece mais com coisa, rótulo, vírus, burguês, bicho, planta, etê, louco, amigo imaginário, sonho, luz e sombra, do que gente. Não apenas "gente".

Também pode ser alma.



Fabiane Zambon é designer, mas também atriz, mas também escreve hipertextos cheios de som e ramos no seu blog. Ela também fez esse texto de presente pra ela mesma no seu aniversário há dois anos atrás.

sábado, 11 de julho de 2009

O auto-retrato - Mário Quintana

-Leia outras poesias

Em julho propus para alguns colaboradores do Clubinho que cada um fizesse seu auto-retrato. É a primeira tentativa de uma produção temática. A partir de amanhã começo a publicar o que já recebi. Pra começar uma poesia de Mário Quintana


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!

-Quer ler mais trabalhos de autores consagrados? Clique aqui

quinta-feira, 9 de julho de 2009

"The Man With Beautiful Eyes" - Charles Bukowski

Um belo poema de Charles Bukowski transformado em animação por Jonathan Hodgson

Dica do Gabriel Gianordoli.

Não sabe quem é o Bukowski? Descubra aqui!